A encenação da Via-Sacra da Rocinha promete surpreender hoje o público que há 15 anos acompanha o espetáculo pelas vielas da comunidade. Este ano, a apresentação do grupo de teatro Roça Caçacultura traz várias novidades, que tentam aproximar ainda mais o espetáculo da realidade da favela. Logo na primeira cena da polêmica versão da via-crúcis, crianças simulam, em lajes, brincadeiras com armas improvisadas com pedaços de madeira. - Esta é a atmosfera mais próxima da nossa realidade - explica o diretor Aurélio Mesquita.
Em seguida, surge Jesus, interpretado pelo ator Lucas Valentim. Na primeira fala, o ator declara um poema. - Meus sonhos são outros. Ninguém fica imune morando no esgoto - declara. A trilha sonora é atrativo à parte. Inclui canções de Chico Buarque e até letras de funk.
A música nascida na favela carioca entra na trilha do bacanal de Herodes (quando Jesus Cristo é apresentado ao rei da Judéia). De acordo com Aurélio, a idéia surgiu pensando no que mais aproxima a favela de um bacanal. - Se Jesus nascesse hoje, não seria no Leblon. Por isso fazemos inovações - diz o diretor, que nesta quinta ensaiou o elenco pelas vielas da comunidade.
Maria Negra
Este ano o espetáculo também ganhou nova Maria: Bruna Barros, 17 anos, que interpreta a mãe negra de Jesus. A atriz pretende aproveitar o papel para chamar a atenção da sociedade para a luta das mulheres no dia-a-dia. - Uma mãe que trabalha e batalha o dia inteiro e que perde seus filhos. Quero gritar e dizer que estou aqui - diz Bruna, lembrando que a dor de perder um filho vivida por muitas mães é como a dor de Maria.
O último ensaio antes da apresentação atraiu a curiosidade e encantou centenas de moradores da Rocinha. Todos fixaram os olhares nas lajes das casas onde o grupo se apresenta na maior parte da peça. Outros acompanharam a caminhada dos atores pelas ruas e vielas até o alto da favela, em quase duas horas de encenação.
O espetáculo tem no elenco 39 atores, sendo 12 artistas do grupo Roça Caçacultura. Os outros integrantes do grupo são moradores da comunidade selecionados por testes. No ano passado, a peça foi assistida por 10 mil espectadores. O público poderá conferir nesta sexta a polêmica versão da Via-Sacra, a partir das 20h, no Largo do Boiadeiro, na Rocinha.
Pequenos estréiam na peça
Pela primeira vez, sete crianças participam da peça, duas com armas de brinquedo. Mas a direção do espetáculo jura que não queria polemizar. Elas aparecem como se estivessem brincando de polícia e ladrão, enquanto Cristo percorre a favela.
Os 70 integrantes que farão hoje a apresentação da Via-Sacra na Rocinha ainda não receberam os cachês, variando de R$ 400 a R$ 1.050, que vem de patrocínio de R$ 118 mil de empresa de energia. Sem dinheiro, atores reaproveitaram sobras do figurino do ano passado e também contaram com a ajuda de doações e empréstimos. Verba estava prevista para ser liberada em fevereiro.
Do outro lado da cidade, a tradição. Foi celebrada nesta quinta-feira, às 18h, na Igreja da Candelária, no Centro, a cerimônia do Lava-pés, que recorda a Santa Ceia. Ela foi rezada pelo arcebispo do Rio, cardeal Dom Eusébio Scheid, que lavou os pés de 12 seminaristas da Arquidiocese, representando os apóstolos de Cristo. Segundo a Bíblia, Jesus lavou os pés de seus discípulos antes de repartir o pão e o vinho.
Nova Iguaçu ficou sem o auto
Já em Nova Iguaçu os moradores não verão hoje a tradicional encenação da vida de Cristo nas ruas da cidade. O patrocínio da prefeitura não foi liberado a tempo. Segundo a produtora Anna Márcia Mixo, o município só confirmou a verba de R$ 40 mil dia 27 do mês passado: - Em menos de 10 dias não temos condições de montar uma peça como essa -. Cerca de 100 atores participariam. Um dos convidados foi Bernardo Mendes, o Bodão de Malhação, que faria o Anjo Gabriel