Após quatro meses de uma investigação conjunta da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e da Polícia Federal (PF), agentes conseguiram prender, em Umuarama, interior do Paraná, um dos maiores abastecedores de armas do Rio de Janeiro. Jorge Ribeiro de Assunção, o Foguinho ou Neguinho, 27 anos, negociava com facções diferentes, mas tinha como principal 'cliente' o traficante Saulo de Sá Silva, o Robinho, da favela da Rocinha.
As investigações indicam que Saulo transformou o local em um entreposto de armas. Em 11 de junho, uma bazuca americana M72A2, avaliada em R$ 40 mil no mercado negro, foi apreendida na Rodovia Rio-Santos, em Itaguaí. Ela havia sido enviada por Foguinho, do Paraguai (onde ele pagou cerca de R$ 9 mil), para o traficante carioca.
Na ocasião, Maicon Henrique do Nascimento, 19 anos, e a namorada dele, 16 anos, que transportavam a arma em um Gol, foram presos. Eles reconheceram Foguinho como quem os contratara para trazer a mercadoria.
Foguinho, além de negociar com a facção Amigos dos Amigos do Lulu (ADALL), enviava armas e munição para o Comando Vermelho (CV). A porta de entrada era o Morro do Turano, no Rio Comprido, cujo principal negociador é Cristiano de Sá Silva, o Abelha, irmão de Saulo, que está preso em Bangu 3.
Pelas investigações, Saulo - que há mais de um ano domina todo o fornecimento de drogas para a Rocinha, aumentou seu poder como abastecedor de armas também para outras favelas. — Ele pegava armas e munição, colocava parte na Rocinha e vendia o resto a outras comunidades, até de facção inimiga — afirma um agente.
Em outubro, a polícia já havia descoberto o interesse de Saulo em monopolizar o mercado negro de armas na cidade. Mas as negociações com Foguinho só começaram a se intensificar no mês de abril. Em apenas dois dias, o bandido comprou dois fuzis calibre 7.62 com carregadores; quatro carregadores de fuzil M-16 de calibre 5.56; pistola Glock calibre 40; e quatro fuzis HK-33. Granadas M-9 também foram encomendadas.
20 mil balas por mês
Os pedidos continuaram em maio. Na mesma semana, foram enviados munição, duas pistolas e um fuzil. — Ele é um dos principais fornecedores de armas do Rio. Chegava a encomendar entre mil e cinco mil cápsulas a cada 10 dias — diz o agente.
Foguinho teve a prisão decretada pela 1ª Vara Criminal da Ilha do Governador em virtude de uma investigação da Drae. Sua prisão ocorreu depois que ele deixou o Paraguai e chegou a Ponta Porã (MS), sendo seguido e preso pela PF.
Bandido triplicou lucro do crime
Desde meados do mês passado, as articulações do traficante Saulo, um dos homens que controlam o tráfico na maior favela da América Latina, vêm sendo investigadas. O bandido chegou a fazer uma espécie de 'licitação de pó' para atrair fornecedores para o período de julho, quando cerca de 600 mil turistas estarão na cidade para os Jogos Pan-Americanos.
Os contatos com fornecedores da pasta-base (cocaína com quase 100% de pureza), diretamente da Bolívia, fizeram com que ele conseguisse triplicar os lucros da Rocinha. Ele contratou um químico paulista, identificado pela polícia como Coroa, para misturar a droga. Com o aval de um dos chefões das bocas-de-fumo da favela, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, passou a negociar drogas também para outras comunidades, inclusive o Turano, do CV.
Mês passado, um agente da PF foi morto na Via Ápia quando tentava prendê-lo. A mulher de Saulo, identificada como Bibi Perigosa, expôs a vida do sempre discreto bandido no site de relacionamentos Orkut, com fotos dele até numa banheira de hidromassagem. Há imagens também do casal com maços de notas de R$ 100.