Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2026

Rio: ocupação de escolas gera rede de solidariedade aos estudantes

Músicos, professores, artistas, cientistas, apoiadores e gente de boa vontade têm doado tempo e insumos para os estudantes que ocuparam mais de 70 escolas estaduais no Rio de Janeiro

Quarta, 04 de Maio de 2016 às 09:52, por: CdB

A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) decretou recesso antecipado para as escolas ocupadas, e informa que vai disponibilizar uma cota extra de até R$ 15 mil para cada unidade da rede

Por Redação, com ABr - do Rio de Janeiro:

Músicos, professores, artistas, cientistas, apoiadores e gente de boa vontade têm doado tempo e insumos para os estudantes que ocuparam mais de 70 escolas estaduais no Rio de Janeiro. O movimento começou no dia 21 de março, no Colégio Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, Zona Norte da capital, em apoio à greve dos professores, iniciada no dia 2 de março, e por melhorias nas escolas e na educação.

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Colégio Estadual Heitor Lira, na Penha, zona norte da cidade, ocupado pelos alunos

A geofísica Mônica Costa é uma das pessoas que se solidarizou com a causa dos alunos e mobilizou amigos para dar aulas de ciências exatas. O objetivo não é substituir os professores, mas dar um reforço no conteúdo e ânimo para quem vai prestar o Enem. “A gente tem um coletivo, Mães e Crias na Luta, e as meninas estavam ajudando muito com palestras, mas todas na área de humanas. Me lembrei dos amigos que dão aulas de exatas e achei que eles iriam se empolgar para empoderar os meninos para as ciências. É uma área mais carente, falta bastante professores.”

O grupo reúne 12 geocientistas, entre geofísicos, geólogos e físicos, que montou uma escala para, a cada dia, um dar uma aula no horário do almoço. De acordo com ela, foi escolhida uma escola do centro, a Souza Aguiar, que fica perto do seu local de trabalho e tem recebido menos ajuda.

– As escolas da Zona Sul, Largo do Machado, Leblon, têm muito mais voluntários e gente se oferecendo. Isso contribuiu para a nossa escolha também, porque no centro e à medida que você vai se distanciando do metrô, é mais carente de voluntários para ajudar. Os estudantes foram bem receptivos, estavam precisando de aulas na época em que a gente chegou, então eles estavam bem abertos. Entramos em contato na semana passada e começamos a dar as aulas mesmo esta semana.

Música e doações

O músico Gabriel Muzak participou de um sarau no último sábado, no Colégio Estadual Paulo Freire, no Cachambi, Zona Norte da cidade, e está organizando um evento artístico e musical para o próximo domingo, a fim de arrecadar doações de alimentos e de material de limpeza para as escolas ocupadas. Para Muzak, o movimento é “autêntico e maravilhoso”, já que partem dos próprios estudantes, os principais afetados, as denúncias sobre os problemas na educação e nas escolas.

– O auditório não é grande, mas poderia receber muitos eventos. Tem cadeiras para o público, um palco, sistema de som, violão, cavaquinho e instrumentos de percussão. Mas, segundo os alunos, a sala fica trancada o ano inteiro e ninguém sabia da existência. Assim como a sala de informática, com vários computadores novos, cadeiras, e ninguém tinha conhecimento. Havia grande acúmulo de livros lacrados no pátio central, os alunos questionaram e foi colocado um tapume em volta, transformando o local em um depósito de livros escondidos.

Na última segunda-feira, a cantora Marisa Monte visitou o Colégio Estadual André Maurois, na Gávea, Zona Sul do Rio. Pelo Facebook, a cantora postou uma nota de apoio e a lista do que os estudantes precisam. “São jovens estudantes, batalhando pela educação e cuidando com amor do que é público. De forma organizada, cada um fazendo a sua parte e dando exemplo para este país. Cantei quatro músicas com eles e com o Dadi e pude voltar a ter esperança em uma força transformadora”.

Professor de história no Instituto Politécnico da Universidade Federal do Rio de Janeiro em Cabo Frio, Vitor Bemvindo montou com outros colaboradores o Observatório das Escolas Ocupadas. O grupo, no Facebook, tem feito a intermediação entre as necessidades dos estudantes e as pessoas dispostas a oferecer ajuda.

– Como a maior parte das pessoas que está envolvida mora na Tijuca, então estamos acompanhando mais as escolas aqui da região. É um grupo de Facebook, a gente coloca as demandas de atividades das escolas, as pessoas se oferecem no grupo e repassamos para as escolas. Estamos agindo como um grupo de apoio mesmo, não interferindo na autonomia da mobilização deles, a ideia é mesmo ouvir o que estão precisando e tentar mobilizar doações.

Com mais de um mês das primeiras ocupações, Bemvindo lembra que foi marcada para esta quarta-feira uma mobilização unificada, com atos em diversas regiões da cidade, como o Largo do Machado, Bangu, a Tijuca e o Méier.

Negociação

A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) decretou recesso antecipado para as escolas ocupadas, que teve início na segunda-feira, e informa que vai disponibilizar uma cota extra de até R$ 15 mil para cada unidade da rede, “para que sejam feitas, pela direção da escola, manutenção e reparos considerados menores”.

De acordo com a Seeduc, o governo já cedeu em diversas demandas dos grevistas e dos ocupantes, como o abono das greves ocorridas entre 1993 e 2016 e a decisão de que não haverá corte de ponto da greve atual. Além disso, a secretaria estabeleceu que, a partir de 2017, as disciplinas filosofia e sociologia passam a ter dois tempos no 1º ano; a votação, na Assembleia Legislativa, de lei para permitir a carga de 30 horas semanais para funcionários administrativos e para a escolha do diretor da unidade pelo voto da comunidade escolar e a regularização da situação dos professores que dão aulas em mais de uma escola.

– Com as ocupações, chegou-se a um ponto em que a secretaria não consegue mais agradar ao professor e ao aluno ao mesmo tempo. Dar presença a um docente sem que ele aplique o conteúdo didático-pedagógico não é justo com o estudante. Por outro lado, não seria justo dar falta ao professor que não está em greve e quer trabalhar, mas o colégio está ocupado – diz nota da Seeduc. A secretaria informa que o calendário das escolas ocupadas será diferenciado, de acordo com o tempo de ocupação de cada uma, e que está buscando espaços para montar escolas provisórias, a fim de “evitar que alunos contrários às ocupações, que são maioria, fiquem sem estudar”. Também vai autorizar a transferência de estudantes que queiram mudar de unidade. O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro disse que é contra o recesso antecipado e que só vai discutir o calendário de reposição das aulas ao fim da greve. O sindicato reitera que não está envolvido nas ocupações das escolas, apesar de apoiar o movimento e de professores grevistas estarem ajudando os alunos.

As propostas da Secretaria de Educação deve ser discutidas nesta quarta-feira pela categoria, em assembleia no Clube Hebraica, em Laranjeiras.

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