O assessor de armas governamental David Kelly estava incomodado com a redação de um dossiê de inteligência sobre armas iraquianas produzido por autoridades do governo do primeiro-ministro Tony Blair, mas "não pensava que elas estavam sendo intencionalmente desonestas", revelou a repórter da BBC Susan Watts num inquérito oficial sobre o suicídio do assessor.
— Algumas vezes você tem de transformar coisas em palavras que o público entenda — disse o ex-inspetor da ONU numa conversa gravada à repórter. A fita foi divulgada nesta quarta no inquérito.
O inquérito investiga o suicídio de Kelly, que ocorreu dias depois de ele ter sido publicamente identificado como a fonte de uma matéria da BBC que sugeriu que o governo exagerou o perigo apresentado pelo Iraque.
Kelly disse que assessores de Blair pegaram avidamente informação de inteligência sugerindo que Saddam Hussein poderia lançar um ataque com armas químicas e biológicas num prazo de 45 minutos e a "extrapolaram".
— Eles (o governo) estavam desesperados por informação. Aquela foi uma que apareceu e eles a pegaram, e infelizmente foi isso — contou Kelly à Susan Watts.
Kelly admitiu que o governo deveria mudar a redação do material de inteligência para "consumo público".
— Não acho que eles foram intencionalmente desonestos, acho que eles apenas pensaram que essa era a forma que faria o público avaliar melhor — estimou.
— Oficiais de inteligência não estavam muito preocupados com as atuais armas do Iraque, "mas o que eles teriam no futuro. Mas isso infelizmente não foi expressado firmemente no dossiê porque levaria o caso para a guerra para um certo âmbito — disse Kelly a Watts.
Kelly, 59 anos, um destacado cientista governamental britânico, foi encontrado morto perto de sua casa no sul da Inglaterra com um pulso cortado em 18 de julho.
Seu nome havia sido vazado como sendo a principal fonte de uma matéria do correspondente de defesa da BBC Andrew Gilligan que sugeria que o governo Blair enganou os britânicos sobre as justificativas para a guerra.
Em sua matéria, Gilligan escreveu que uma autoridade, não identificada, acusou o governo Blair de ter "tornado mais atraente" o dossiê e que a denúncia sobre a prontidão de 45 minutos havia sido incluída contra a vontade de chefes de inteligência.
Num artigo posterior para um jornal, Gilligan sugeriu que a fonte, depois confirmada como sendo Kelly, havia dito que o diretor de comunicação de Blair, Alastair Campbell, insitiu para que fosse incluída a informação dos 45 minutos.
A reportagem provocou uma áspera disputa entre o governo e a BBC. Ela também precipitou a maior crise nos seis anos do governo Blair - especialmente pelo fato de até agora não terem sido encontradas armas de destruição em massa no Iraque.
Na entrevista gravada com Watts, algumas partes dela inaudíveis, Kelly não foi específico sobre o papel de Campbell. Watts perguntou:
— Seria correto, então, dizer que foi Alastair Campbell que...?
Kelly respondeu:
— Não, não posso. Tudo que posso... é o escritório de imprensa número 10 — referindo-se à residência oficial do primeiro-ministro britânico, na rua Downing nº 10.
Kelly acrescentou:
— Nunca me encontrei com Alastair Campbell portanto não posso... Mas... acho que Alastair Campbell é sinônimo do escritório de imprensa já que ele é responsável por ele.
Poucos dias antes de sua morte, Kelly negou que tivesse sido a fonte da matéria de Gilligan e disse a uma comissão parlamentar que não acreditava que Campbell havia manipulado o dossiê.
Executivos da BBC, autoridades do governo e Blair ainda vão depor no inquérito, que nesta quarta entrou em seu terceiro dia.