Renúncia de mediador da ONU evidencia fracasso na Síria
Após não obter sucesso nas negociações, enviado especial deixa cargo qualificadas pelo próprio Ban Ki-moon como "tarefa quase impossivel". Sucessor terá desafio de lidar com oposição dividida e destravar processo de paz. "Ele tinha uma tarefa quase impossível". Assim resumiu o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a renúncia.
Após não obter sucesso nas negociações, enviado especial deixa cargo qualificadas pelo próprio Ban Ki-moon
Após não obter sucesso nas negociações, enviado especial deixa cargo qualificadas pelo próprio Ban Ki-moon como "tarefa quase impossivel". Sucessor terá desafio de lidar com oposição dividida e destravar processo de paz.
- Ele tinha uma tarefa quase impossível - assim resumiu o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a renúncia, anunciada nesta quarta-feira, de seu enviado especial e da Liga Árabe para a questão Síria, Lakhdar Brahimi.
A realidade na Síria é, de fato, tão complicada quanto a missão que teve Brahimi. Três anos após o início do levante contra o regime de Bashar al-Assad, ainda não há perspectivas de uma solução para o conflito, que já custou mais de 150 mil vidas e forçou o deslocamento de cerca de 9 milhões de pessoas. Desde outubro do ano passado, as forças leais ao governo teriam usado armas químicas, segundo o governo francês, pelo menos 14 vezes.
Brahimi não tinha muitas opções. Segundo Anthony Cordesman, especialista em Oriente Médio do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, o enviado especial contribuiu para aliviar o desastre humanitário à população civil, mas um avanço real nunca esteve, de fato, ao seu alcance.
- Chegou-se a um ponto em que parece que ninguém conseguiria realizar progressos, tanto em termos de resultados políticos ou da situação humanitária - afirma Cordesman. "Lidamos com uma tragédia, e ninguém tem o poder de mudar esse quadro."
Segundo a renunciar
Brahimi, ex-mediador internacional no Afeganistão, é o segundo diplomata de alto nível que tentou, em vão, encontrar uma solução para o conflito na Síria. Ele assumiu o cargo em setembro de 2012, sucedendo ao ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, que também havia renunciado ao cargo de enviado especial para a Síria.
O argelino de 80 anos buscou a solução diplomática em duas rodadas de negociação em Genebra, com a presença de representantes do regime de Assad e da oposição. E o anúncio do governo sírio em abril, de que vai realizar eleições no dia 3 de junho, visando a ratificação do poder do atual ditador, reduziu ainda mais as esperanças de se obter progressos significativos na resolução dos conflitos.
- Até que se tenha uma mudança fundamental na situação na Síria, ainda não é o momento adequado para buscar uma solução diplomática - diz a especialista em Oriente Médio Geneive Abdo, do Centro Stimson, de Washington. Segundo ela, o moral dos opositores do regime atingiu o ponto mais baixo: "A oposição síria está desencorajada. Há um mês, as comemorações do aniversário da revolução foram ofuscadas por sentimentos de depressão e tristeza."
Abdos analisa que uma série de fatores levou ao impasse atual. A desunião da oposição síria reforçou o argumento de Assad de que os extremistas causam apenas o caos, sem qualquer ordem. Além disso, a comunidade internacional, critica a especialista, cometeu erros ao lidar com os jogos de poder no Oriente Médio, como ao convidar o Irã a participar das negociações de paz em Genebra e depois remover o convite, cedendo à pressão dos Estados Unidos.
Sem chance à diplomacia
Segundo Abdos, vai levar tempo até que uma nova oportunidade diplomática seja possível. No entanto, explica, não significa que isso não venha a acontecer, já que apenas dessa maneira a guerra poderá chegar ao fim. Os 15 anos da guerra do Líbano, lembra ela, terminaram com uma solução diplomática. E o conflito guarda algumas semelhanças com a guerra civil síria, ainda que fosse menos violento.
O pré-requisito fundamental do próximo enviado especial para a Síria é ter, acima de tudo, paciência. Em Nova York, a busca pelo sucessor de Brahimi já começou. Entre os nomes que circularam nesta terça-feira estava o do atual ministro do Exterior da Tunísia, Kamel Morjane.
De acordo com Cordesman, não é tão importante que o próximo a assumir o cargo tenha a mesma estatura internacional de seus predecessores: "A essa altura, não acho que seja preciso alguém de alto perfil político. Deverá ser um indivíduo que transmita credibilidade, que seja objetivo, neutro e que possa trazer argumentos convincentes no que diz respeito à ação humanitária e existem muitos na comunidade internacional com esse perfil."
No futuro próximo, mais do que um grande esforço diplomático, a crise na Síria precisará de gerenciamento diário.
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