Muitotem sido escrito sobre as contradições de nosso tempo. Muito se olhamos estatisticamentee comparamos com outros temas. Muitas discussões são feitas também, é verdade,em grupos de debate, em seminários e grupos de estudo. Vivemos a época da falae da imagem. Ler e escrever são cada vez mais coisas do passado. É verdadetambém que há um vazio praticamente sem precedentes na história recente. Umvazio de referencias. Já não se fazem mais sociólogos com antes. Porta vozes deseu tempo; já não se encontra fácil um teólogo com coragem e profeciasuficientes para dizer o que pensam a partir de sua profecia e de sua fé. Semmedo da carranca de seu bispo ou superior e sua "autoridade” para anularqualquer voz desobediente. Quantos jornalistas conhecemos que estão a serviçoda notícia e da história e não das conveniências da empresa que representam? Quantospoetas têm voz e lançam suas flexas com direção certa e destino certo e dizem,metafórica e alegoricamente, verdades que somente eles sabem como dizê-las? Émelhor vender livros. É possível desse jeito, ouvir o silêncio que paira nomeio do barulho e repetições. Patina-se como uma tartaruga desvirada sobre umasuperfície lisa. Todos dizem quase sempre a mesma coisa. Fala-se da ferida, masnão se mostra a ferida. Os artigos buscam em geral, mais agradar que incomodar.Se quem deve comunicar não comunica, quem devemos esperar que o faça?
Vivemos,assim, uma época e uma situação de grandes contradições. Os que cuidaram de nósquando criança –nossos pais, avós tios e tias– estão sendo abandonados. Àsvezes dentro de casa, outras descartados em casas de "repouso”, pois que lá sãobem cuidados, dizem. Como Zaqueu, (Lc 19, 1- 10), é hora de assumirmos ocompromisso de devolvermos a eles quatro vezes, no mínimo, o que delesrecebemos. As crianças abandonadas, -meninos de Rua de quem temos tanto medo– sãodeserdadas das promessas de Deus e das conquistas do progresso tecnológico ecientífico. O amor é o grande vagabundo deste tempo. Por ser o bem maior e porser gratuito, por exigir, portanto, compromisso concreto, exigir correr riscos,ser capaz de transgredir leis e normas. Sem o amor levado a sério tudo o maisserá em vão. Omigrante, o estrangeiro, pedaços da totalidade humana, pedaços de mim e de nóssão triturados nas alfândegas do mundo. Espatifados pelos paises e continentesinsistem em dizer que sua casa e sua pátria é o planeta. Assim, o migrante é umDeus migrante, complementa a totalidade do Deus verdadeiro de quem somosporções. As fronteiras geográficas são cercadas com as fronteiras neoliberaisda xenofobia, do preconceito, da intolerância, dos mais variados tipos defundamentalismos. Da indiferença muitas vezes.
Alíngua varia, muda, dificulta a vida do migrante, mas a linguagem do amor e dafraternidade é permanente, compreensível e eficaz. É hora de juntar de novo,como fez o migrante de Nazaré, primeiro militante e preso político crucificadopor subverter a ordem econômica, política e religiosa, opressora de seu tempo.É hora de juntar de novo a palavra e a ação. A ação e a palavra. Muitos outrostiveram a coragem profética de imitar o Nazareno. Correndo o risco conscientede deixar muitos outros fora, mesmo assim, citarei como representantessimbólicos de todos os lutadores. Paulo Freire se fez palavra na ação e se fezação a partir de suas palavras corporeificadasna ação concreta. Dom Helder Camara, o bispo vermelho, cuja tinta nesta cor seencontra em extinção, clama, Mariama! Quem o ouve? O rádio não toca sua cançãopelo pobre. Frei Tito de Alencar que, por tanto merecer, está vivo; vive emcada jovem estudante ou excluído do sistema educacional. A propósito, quantosdesses jovens, incluídos ou não, sabem quem é e o que faz Dom PedroCasaldáliga? O bispo poeta de um antigo e novo jeito de toda a Igreja ser. Oque fazemos como Igreja, da sabedoria e do testemunho profético de Dom Tomás Balduino?Quando vamos contar para nossa juventude deserdada de referências, de Dom PauloEvaristo Arns? Quantos desses nossos jovens, a mais ou a menos tempo, sabemquem é Frei Betto, esse Frade Dominicano, intelectual militante de extensa obraliterária, acadêmica e profética? Testemunha viva da história dos últimosquarenta anos de nossa história. Mais de cinquenta livros escritos só emportuguês; que teve uma ação concreta, uma inserção no conceito de Paulo, nomeio do povo.
Tenho-mefeito há algum tempo essa pergunta: o que estou fazendo das fontes deinspiração e dos referenciais éticos, políticos e religiosos que me fizerammilitante? Agora tenho feito a mesma pergunta para meus companheiros de sorte,de caminho e destino. Essa é a nossa grande dívida interna, a meu ver, não terconseguido transmitir o bastão da história que recebemos de nossos mestres aosque nos sucederão. Teremos nós discípulos de nossas causas? Às vezes temo quenão tenhamos, mesmo acreditando naquela expressão de Abraão com Isaac quandoele disse: "Deus proverá”. Não duvido disso, mas ao mesmo tempo, isso não nosdesobriga do nosso compromisso.
Hoje,chegamos ao extremo de termos mais medo de uma criança de Rua do que de umprefeito corrupto ou de um vereador mercadoria que vota de acordo com a propinaque lhe paga o prefeito. Temos mais medo de um mendigo ou de um morador de Rua–confundimos até um com o outro– do que de um pastor pedófilo, seja qual for asua denominação religiosa e a sua função eclesial. A gente está se acostumandocom slogans, e os substituindo no lugar da ação concreta e do compromisso. Émelhor falar de evangelização, é muito mais fácil e cômodo que efetivamenteevangelizar. Não compromete. Fácil também é encontrar alguém querendo mudar osoutros e o mundo, mas não é fácil encontrar alguém disposto e querendo mudar asi mesmo e seus hábitos. Será por isso que as campanhas de marketing religiosocom shopping center virtual e os horários de propaganda valorizados são tãoaceitos? É instigante ver que a maior disputa de audiência hoje no rádio e natelevisão, é entre os programas de violência e os "religiosos”, que parecemquase sinônimos. Usa o mesmo apelo, têm praticamente a mesma linguagemapelativa e a mesma didática. Uns, aparecem mais que Jesus e apenas usam delepara isso. Outros aparecem mais que as vitimas e suas famílias. Ambos ganhammuito dinheiro e constroem castelos e fama. São ídolos de cera que cheiram àmorfina da vaidade e não suportam o calor de uma religião libertadora ou de umaimprensa democrática.
Oremendo é tecido, assim como a roupa também o é, mas o remendo não é roupa.Temos confundido a todo instante o remendo com a roupa, a causa com aconseqüência, às coisas com as pessoas. Temos trocado a religião por uma legiãode ideologias desideologizadas. Para ficarem mais atraentes. Religião não podeser confundida com terapia. A bíblia não pode ser resumida a um livro deautoajuda. Confundimos a parte com a totalidade. O conceito com simples noção.Assim pensamos o ser humano e a vida fragmentados. Falamos do jovem, da criançaou do idoso e esquecemos que antes, eles são seres humanos. É por ser antes umser humano que podem ser crianças, jovens ou idosos. Exemplo e testemunho e porisso mestre, é Zé Vicente, poeta, profeta das Comunidades Eclesiais de Base,porque não apenas canta a vida, mas deixa a vida cantar a partir dele. Éinstrumento, algo maior, muito maior que ser artista simplesmente.
Curitiba,31 de Julho de 2011.