Rio de Janeiro, 05 de Novembro de 2026

Religiosidade do povo brasileiro

Sexta, 16 de Setembro de 2011 às 09:06, por: CdB

Na última semana do mês de agosto de 2011 forampublicados os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), doInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tais dados trazemalgumas informações interessantes sobre a religiosidade do povo brasileiro.

O primeiroaspecto da pesquisa que chama a atenção é o aumento das pessoas que nãomantêm vínculos com a sua crença. Declaram-se pertencentes a uma denominaçãoreligiosa, mas reconhecem que não são praticantes. Entre os católicos isso jáera bem visível. A novidade está por conta dos evangélicos, onde os nãopraticantes passaram de 0,7% para 2,9%.

Tal situação revela que as pessoas, cada vez mais, constroemsua religiosidade sem se preocupar com o que dizem as suas instituiçõesreligiosas. Vale a interpretação pessoal e não a orientação das lideranças edas igrejas. Para as instituições religiosas isso representa um grande desafio,uma vez que tal fenômeno enfraquece o poder de controle sobre as pessoas e detransmissão das tradições religiosas. Pode ser o início do fim de muitasigrejas e religiões, pelo menos em determinadas partes do mundo.

Embora não seja totalmente uma novidade, uma vezque o fenômeno já vem de algum tempo, um segundoelemento bem significativo é o aumento do trânsito religioso. Trata-se da circulação de fiéis por diferentesdenominações religiosas. As pesquisas apontam que pelo menos 53% dosbrasileiros e das brasileiras já circularam por mais de uma denominaçãoreligiosa. A mobilidade entre os evangélicos chega a quase 40% dos adeptos deigrejas pentecostais e neopentecostais,

Para explicar esse fenômeno, Libanio, estudioso daquestão, usa a metáfora do ônibus circular: tem sempre gente entrando e saindo.Isso revela a incapacidade cada vez maior de atrair e de segurar os fiéis, porparte das instituições e lideranças religiosas.

Fica bem evidente que a religiosidade se tornou umaexperimentação. As pessoas não sefixam mais no institucionalizado, mas exercitam o poder de escolha, como fazempara tantas outras questões. Há o afrouxamento dos vínculos e dos compromissos.Esse dado revela a impotência das instituições. Elas não conseguem ofereceralgo mais consistente, capaz de levar o fiel a aderir aos seus credos de modopermanente ou definitivo.

É claro que tal fenômeno tem a ver com após-modernidade, período em que tudo o que é sólido "se desmancha no ar”. Masrevela também uma profunda crise interna das instituições religiosas. Elas nãoexercem mais poder de atração sobre os fiéis que nelas estão ou chegam. Mostracomo seus processos pedagógicos e metodológicos – se é que eles realmenteexistem – não mais funcionam para os tempos atuais. Precisam encontraralternativas. Mas parece-me que isso continua muito difícil, uma vez que taisinstituições, diante de fenômenos como esses que a pesquisa menciona, ao invésde buscarem outros caminhos, se fecham nos casulos do fundamentalismo e doconservadorismo. Elas continuam rígidas, fechadas, intransigentes e insensíveisaos verdadeiros problemas das pessoas que pedem mais flexibilidade,compreensão, misericórdia, perdão e ternura.

Um terceirodado revelado pela pesquisa mostra que são as mulheres a mudarem dereligião com mais frequência. E fazem isso mais por razões altruístas do quepor motivos pessoais. As razões vão desde a recuperação de um casamento até apreocupação com um filho ou um parente doente. Já os homens mudam de religiãona tentativa de resolver questões pessoais. Também aqui aparece a crise dasinstituições. Fazem muito barulho na mídia e nos templos, mas na prática nãoacompanham e nem seguem de perto os seus fiéis. Há rebanhões, encontros demassas, concentrações, acampamentos, mas as pessoas continuam se sentindosozinhas, abandonadas. Por isso vivem mudando de religião, de igreja, natentativa desesperada de encontrar alguém que as ajude concretamente.

A atual política das igrejas é de arrebanharmultidões e não de solidariedade, de escuta e de oferecer apoio real àspessoas. Essas continuam se sentindo sozinhas e sem ninguém. Os templosreligiosos se tornaram supermercados da fé, onde se vendem "kits de salvação” apreços diferenciados, segundo o poder aquisitivo de seus fiéis. As igrejas setornaram agências de prestação de serviços religiosos. O marketing e apropaganda atraem os fiéis para que comprem os kits. Mas, ao experimentarem osprodutos, os fiéis descobrem que eles não passam de propaganda enganosa, umavez que a vida não muda num passe de mágica, com o consumo de um produtoreligioso. Por isso vão à busca de outros kits, na esperança de um dia encontraralgum "elixir milagreiro” que resolva todos os seus problemas.

Há mais umdado que me chamou muito a atenção: o crescimento no Brasil da religiãomulçumana. Pesquisas revelam que o número de convertidos na comunidademulçumana do Rio de Janeiro pulou de 15% em 1997 para 85% em 2009. Segundo osdados, a conversão de brasileiros para o islã cresceu em 25%. Em Salvador, 70%da comunidade mulçumana são de pessoas convertidas. O crescimento se dá não obstantetoda a propaganda anti-islâmica desenvolvida pelos países ocidentais, lideradospelos Estados Unidos. A pesquisa está em consonância com os dados mundiais.Segundo algumas estimativas, em 2050, os mulçumanos serão a maior religião daEuropa em número de fiéis.

O que faz uma religião tão perseguida, e tida comoperigosa para a liberdade e a democracia, crescer de modo tão acelerado? Algunspesquisadores acreditam que as pessoas estão se dando conta de que o islã não éesse "bicho-papão” pintado pela propaganda ocidental. Sua religiosidade permitemaior compreensão de certos problemas, inclusive mundiais, que outras formas dereligiosidade não conseguem oferecer. Ele se apresenta como uma religião menosintransigente do que aquilo que se pinta na propaganda midiática. Por outrolado, oferece mais solidez e motivações do que as religiões tradicionais dopaís.

Portanto, o perfil da religiosidade brasileiraaponta para uma autonomia religiosa dos fiéis.Estamos cada vez mais deixando de lado a fé institucionalizada para abraçar umareligiosidade mutante, híbrida e pouco ortodoxa. Os contornos religiosos sãoescritos a lápis para serem apagados e refeitos sempre que for preciso. Quemsabe seja a oportunidade para que as instituições religiosas, acostumadas atratar seus fiéis como simples "cordeirinhos”, aproveitem para fazer revisão desuas práticas, começando a enxergar o óbvio: hoje as pessoas querem serautônomas e livres. Não mais aceitam ser amarradas pelo "cabresto” das liderançasreligiosas.

Tags:
Edições digital e impressa