Tombini assinou relatório que aponta a elevação de preços neste ano
Com forte pressão dos preços administrados, o Banco Central (BC) elevou bastante sua projeção de inflação neste ano, para acima de 6%, ao mesmo tempo em que piorou as contas para o crescimento econômico, indicando que o ciclo de aperto monetário pode ser ainda mais longo. Segundo o Relatório Trimestral de Inflação do BC divulgado nesta quinta-feira, o IPCA ficará em 6,1% neste ano pelo cenário de referência, ante previsão de 5,6%, aproximando-se ainda mais do teto da meta do governo, de 4,5%, com margem de dois pontos percentuais para mais ou menos.
O BC também piorou a sua estimativa para a inflação em 2015, a 5,5% em 2015, um pouco acima da medida anterior (5,4%) e projeta que ela fechará o primeiro trimestre de 2016 em 5,4%, também pelo cenário de referência, que vê o dólar a 2,35 reais e Selic a 10,75%.
Os riscos desse cenário, alertou a autoridade monetária, vêm "do comportamento das expectativas de inflação, impactadas negativamente nos últimos meses pelo nível da inflação corrente". Isso porque há dispersão de aumentos de preços e incertezas sobre os preços da gasolina e de alguns serviços públicos, como eletricidade.
Dentro desse contexto, o BC elevou suas estimativas para a alta nos preços administrados a 5% em 2014 e 2015, 0,5 ponto percentual a mais do que a conta anterior. Especificamente para os preços de eletricidade neste ano, a projeção de alta passou a 9,5%, ante 7,5%.
"A esse respeito, o Comitê tem agido no sentido de fazer com que a elevada variação dos índices de preços observada nos últimos doze meses seja percebida pelos agentes econômicos como um processo de curta duração", trouxe o relatório. E acrescentou que esses efeitos "podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária".
Bastante questionado sobre o que levou a essa maior estimativa na tarifa de energia, como o plano para financiar os gastos com acionamento das térmicas por conta da atual estiagem, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, afirmou apenas que as contas se dão "com base nos instrumentos que temos".
Segundo ele, a inflação vai ceder, mas acrescentou que o horizonte de trabalho do BC, de 24 meses à frente, "não contempla convergência da inflação para a meta". O diretor também disse que a política fiscal é neutra e "não adiciona demanda agregada" em 2014 e em 2015. No relatório, o BC voltou a afirmar que é preciso ficar "especialmente vigilante" e que os efeitos da política monetária ocorrem com defasagem.
Juros em alta
Para especialistas, a mudança do cenário inflacionário feito pelo BC foi bastante importante e pode indicar mais aperto monetário.
– Se os dados de inflação continuarem vindo ruins, a Selic teria de subir mais. Mas tem limite. Até certo ponto, não tem como combater preços administrados com aumento de juros – afirmou o economista-chefe do banco Fator, José Francisco Gonçalves, para quem a taxa básica de juros ainda será elevada mais 3 vezes, em 0,25 ponto percentual cada.
Desde abril passado, o BC já elevou a Selic em 3,5 pontos percentuais, para o atual patamar de 10,75% ao ano, a fim de combater a inflação ainda pressionada. Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC se reúne novamente e mais uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros é esperada. Para maio, também já existiam apostas de outro movimento igual, o que levaria a Selic a 11,25%.
No mercado futuro de juros, nesta sessão, as apostas de mais essa alta se consolidaram. O BC também ressaltou as pressões de preços localizadas "especialmente no segmento de alimentos in natura, embora, em princípio, trate-se de choque temporário e que tende a se reverter nos próximos meses", acrescentou. Segundo o diretor do BC, essa pressão vai começar a perder força apenas em junho.
Segundo pesquisa Focus do próprio BC da semana passada, a projeção dos economistas era de que o IPCA fechará este ano a 6,28% e, 2015, a 5,80%. O cenário macroeconômico do país não é dos mais animadores neste ano, quando a presidente Dilma Rousseff tentará a reeleição, com expectativas de desaceleração da atividade e inflação ainda elevada, próxima do teto da meta.
E, para piorar, o BC projeta que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deste ano será de 2%, desacelerando sobre o resultado de 2013. Para Carlos Hamilton, a expansão da economia neste ano será puxada mais pelo setor privado e menos pelo setor público, mas enxerga que a expansão dos investimentos vai recuar. Uma recuperação neste quadro virá com melhora da confiança das empresas.
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