Uma mistura de falta de investimentos, diferenças políticas e aumento de demanda está levando alguns países da América do Sul a competir por recursos energéticos e emperrando o processo de integração da região nessa área.
Com grandes reservas de petróleo e gás, além de uma robusta produção de energia hidrelétrica, na opinião de especialistas e de diferentes governos – entre eles o brasileiro – há muitos benefícios e um grande potencial para se utilizar melhor os recursos energéticos do sub-continente. Mas após avanços nos últimos anos, tanto o Brasil como seus vizinhos enfrentam hoje um aumento de tensão e dúvidas sobre a integração.
Um relatório recente produzido pelo banco alemão Deutsche Bank faz uma lista dos problemas.
"Um dos possíveis obstáculos no futuro próximo é o recente surgimento do nacionalismo em relação aos recursos naturais e tensões políticas associadas a isso". Além disso, o autor do documento, Georg Caspary, aponta para a falta de investimentos e de infra-estrutura regional no setor como outras fragilidades.
Disputas
O exemplo mais recente desses problemas é a disputa pelo gás boliviano entre o Brasil e a Argentina.
No ano passado, uma crise de desabastecimento de energia na Argentina já havia feito com que o país reduzisse suas exportações de gás para o Chile. Neste ano, a falta de capacidade da Bolívia de aumentar sua produção pôs em risco o cumprimento de contratos com Brasil e Argentina. A crise energética boliviana foi alvo de reuniões dos presidentes dos três países e ainda não tem uma solução clara.
Para o analista de energia boliviano, Carlos Miranda, levando-se em conta as projeções atuais de aumento na demanda nos próximos anos, a Bolívia terá que duplicar a sua produção de gás para servir completamente aos dois mercados.
- Na próxima década, a Bolívia tem condições de fazer isso. Mas antes, não - afirma ele.
Mas para aumentar a produção, o país precisa de dinheiro de fora.
- É uma ingenuidade supor que a Bolívia pode levar adiante um processo energético sem investimento externo - afirma o ex-presidente boliviano, Carlos Mesa.
Mesa é um dos críticos do atual governo de Evo Morales, que, em 2006, nacionalizou todas as empresas que exploram hidrocarbonetos na Bolívia, atingindo refinarias da Petrobras no país. O Brasil acabou vendendo suas refinarias ao governo boliviano, mas o episódio provocou tensões diplomáticas e apenas recentemente o governo brasileiro anunciou que voltará a investir no vizinho.
Outro conflito que está se desenhando no horizonte é com o Paraguai. A Usina de Itaipu, que foi pioneira na integração energética nos anos 1970, ainda é a maior do mundo e responde por quase toda energia utilizada pelo Paraguai e mais de 20% da consumida no Brasil.
No entanto, os paraguaios reclamam que a tarifa paga pelo Brasil não é justa e vários dos candidatos à Presidência do país propõem uma revisão do contrato – as eleições ocorrem em 20 de abril.
Ramón Casco, editor de economia do jornal paraguaio ABC Color, uma das mais fortes vozes contra o Brasil na questão de Itaipu, afirma que a Bolívia inspirou os paraguaios.
- Se Evo Morales pediu melhores preços por gás natural, por que o Paraguai não teria direito a pedir melhores preços pelo excedente energético de Itaipu?
Venezuela
Um dos casos mais representativos do desafio da integração regional, no entanto, é o do Brasil com a Venezuela. Os dois países possuem as duas maiores reservas de petróleo da América do Sul, e as duas maiores empresas do setor. A Venezuela é o oitavo maior exportador de petróleo do mundo, e o Brasil é o maior mercado consumidor da região.
Mas a aproximação entre os dois países ainda é tímida. Segundo o analista de petróleo iraquiano Mazzar Al Shereidah, que mora em Caracas há 40 anos, desde os anos 1980 diferentes governantes de Brasil e Venez