Uma comissão do governo sérvio bósnio admitiu claramente na sexta-feira que forças sérvias assassinaram milhares de muçulmanos em Srebrenica em 1995, um massacre que o governo sempre negou.
Mas o relatório da comissão, publicado na sexta-feira, não classificou a atrocidade como genocídio, o que havia sido estabelecido no início do ano em uma decisão judicial do Tribunal Criminal Internacional de Haia para a ex-Iugoslávia, que julga os crimes de guerra cometidos nos Bálcãs nos anos de 1990.
"Este relatório terá um caráter histórico. Atingimos percepções históricas e teremos que enfrentar isso nós mesmos", disse Milan Bogdanic, chefe da comissão do governo da República Sérvia Bósnia, que compilou o relatório sobre Srebrenica.
Cerca de oito mil homens e meninos muçulmanos foram mortos pelas violentas forças sérvias lideradas pelo criminoso de guerra Ratko Mladic, enquanto as forças de paz holandesas enviadas para proteger a "área de segurança" da ONU permaneciam impotentes.
A comissão, no relatório obtido pela Reuters, disse que ele "estabelecia que no período de 10 a 19 de julho de 1995, milhares de muçulmanos bósnios foram assassinados de uma forma que representa graves violações da lei humanitária internacional e que o executor, entre outras coisas, realizou atividades para encobrir o crime ao mudar os corpos de lugar."
"Aceitar e fazer face ao fato de que alguns membros da população sérvia cometeram crimes em Srebrenica em julho de 1995" poderia ajudar a investigar outros crimes na Bósnia e punir os responsáveis, disse o relatório.
As Nações Unidas e o governo holandês se responsabilizaram pelas próprias falhas, mas a República Sérvia não admitiu até agora o que aconteceu em Srebrenica, mesmo depois de várias condenações pelo Tribunal de Haia.
Os principais suspeitos pelo massacre em Srebrenica, os presidentes sérvio bósnios Radovan Karadzic e Mladic, ainda estão em liberdade. Ambos foram condenados duas vezes por genocídio, por Srebrenica e pelo cerco de 43 meses de Sarajevo.
Depois de dois relatórios que deixaram de tratar adequadamente do assunto ao minimizar o alcance e o caráter dos acontecimentos em Srebrenica, o tribunal de direitos humanos da Bósnia ordenou que a República Sérvia investigasse plenamente a atrocidade.
O relatório mostrou que a "Operação Krivaja" tinha três fases planejadas: o ataque a Srebrenica, a separação das mulheres e crianças e a execução dos homens.
O relatório apontou a participação de unidades militares e policiais e identificou a localização de 32 valas comuns.
Quatro delas são as chamadas "valas primárias", onde as vítimas foram originalmente enterradas, e as outras eram lugares onde os corpos foram transferidos para esconder vestígios do crime.
A comissão disse ter compilado dados sobre 7.779 pessoas desaparecidas em Srebrenica, 1.332 das quais foram identificadas, mas acrescentou que este número não é definitivo.