A situação do Brasil é tão grave no que diz respeito aos assassinatos cometidos por policiais que a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Execuções Sumárias, Arbitrárias e Extrajudiciais, a paquistanesa Asma Jahangir, recusou-se neste domingo a comparar o país com o cenário internacional. Mas apontou a injustiça social que marca o Brasil.
"Acho que vocês não iam querer colocar o Brasil em comparação com outros países", disse no Rio. "No Congo é uma guerra. O Brasil é uma democracia. Mas vejo aqui um quadro miserável, triste, onde não há justiça. Há matança", afirmou.
A declaração foi feita depois de a relatora ter passado mais de quatro horas em visita às favelas do Borel e do Jacarezinho, onde ouviu cerca de 20 depoimentos de mães e outros parentes de vítimas de várias comunidades pobres do Rio. "O número de vidas que foram ceifadas é muito grande. Foram três ou quatro em cada (depoimento)", afirmou.
Euristéia de Azevedo, por exemplo, foi relatar a morte do seu filho Willian, que tinha 24 anos, e seus amigos Ana Paula, Carlos André e Thalita, em 10 de outubro de 1998. Ela contou que depois de uma discussão entre o grupo e policiais que faziam segurança no Clube Malagueta, em São Cristóvão, seis agentes seguiram os jovens até o Maracanã, na zona norte, onde mataram os quatro. Thalita era a mais nova, com 16 anos.
A chacina do Borel, em 16 de abril deste ano, na qual quatro rapazes foram mortos por policiais militares, foi relatada por Maria Dalva da Costa Correia da Silva, mãe de Tiago da Costa Correia da Silva. "O comandante do Sexto Batalhão, Francisco Murilo, foi transferido para o Batalhão em Rocha Miranda, onde teve outra chacina. Entre uma e outra chacina, ele recebeu medalha da Alerj (Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro)", revoltou-se Dalva.
Após ouvir todos os depoimentos, Asma Jahangir disse que a quantidade de pessoas que foram conversar com ela foi muito grande, considerando o medo que a situação envolve. Asma ouviu denúncias de que policiais promoveram ações de intimidação no Jacarezinho quando foi divulgado que ela visitaria o local. Uma delas foi atirar em equipamentos da rádio comunitária para impedir a divulgação da visita.
Os moradores também tiveram que vencer o medo dos traficantes. "Pela primeira vez, pessoas de comunidades controladas por facções diferentes (do tráfico) vieram se reunir em uma delas", comentou Lidiane Eluizete de Carvalho, da ONG Opção Brasil.