Por Soares 23/05/2011 às 16:16
o que mais compromete o ministro, mais até do que a própria gravidade das denúncias, é o seu insistente e constrangedor silêncio. Isso pode ser fruto da arrogância de quem se acha inatingível, e, portanto, não devedor de satisfações aos pobres mortais, ou de quem tem algo de podre a esconder.
REINCIDENTE
O ministro Antonio Palocci, ao que tudo indica, é reincidente. Afastado do governo em 2006 por mau comportamento, volta ao noticiário sob a suspeita de enriquecimento ilícito, após a divulgação de que nos últimos quatro anos, período.em que exerceu o cargo de deputado federal, teria multiplicado por 20 o seu patrimônio.
Pressionado pela oposição, e cobrado pela Procuradoria Geral da República, Palocci não se dignou a esclarecer de que maneira conseguiu o milagre da multiplicação do patrimônio, e quais foram as atividades que lhe propiciaram esse milagre.Enquanto o ministro permanece mudo, seus áulicos foram a campo para tentar explicar o, até agora , inexplicável. E só conseguiram aumentar a dúvida a respeito da licitude das atividades de Palocci na iniciativa privada.
Sabe-se que na segunda metade do governo Lula, o então poderoso ministro da Fazenda foi forçado a desembarcar do governo no bojo do escândalo de "República de Ribeirão Preto", que culminou com a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Fora do governo, Palocci não esteve longe do Poder.
Com trânsito livre nos principais gabinetes da República, o atual ministro da Casa Civil não se furtou a usar de sua influência e de suas informações na área econômica para alavancar a sua empresa de ?consultoria?.Através da ?Projeto? Palocci fazia lobby e patrocinava interesses de seus poderosos clientes junto ao governo federal.O quão escusos eram esses negócios é o que vem despertando o interesse da opinião pública, da oposição e da Procuradoria.
Ações como as empreendidas por Palocci não são novidade. Sabe-se que o Estado brasileiro, pelo seu gigantismo, complexidade, e, sobretudo, irracionalidade, se esmera em dificultar a vida de cidadãos e empresas com uma infinidade de normas e barreiras burocráticas. Criar dificuldade para "vender" facilidade tornou-se, pois, uma rendosa prática de agentes públicos desonestos.
Políticos de todos os calibres se aprofundam nessa atividade que proporciona a muito deles um enriquecimento inexplicável aos olhos da maioria dos cidadãos, que labutam honestamente, com sacrifício, e sob o peso esmagador da carga tributária. Empresas de consultoria e afins, como a de Palocci, que não vão muito além de despachantes de luxo, se multiplicam, a facilitar empregos, empréstimos, licitações e contratos, num ambiente de explícita promiscuidade entre o público e o privado.
Diante das denúncias, a oposição se movimenta na tentativa de conseguir colher as assinaturas necessárias para a instalação de uma CPI mista no Congresso. Tarefa difícil, quando se sabe que a instalação de uma Comissão de Inquérito requer o apoio de171 deputados e 27 senadores. Os quatro partidos oposicionistas - PSDB, DEM, PPS e PSOL- têm menos de cem deputados, e somente 18 senadores. Nesse caso, somente uma pressão da opinião pública pode fazer os deputados mudarem de idéia.
Mas, o que mais compromete o ministro, mais até do que a própria gravidade das denúncias, é o seu insistente e constrangedor silêncio. Isso pode ser fruto da arrogância de quem se acha inatingível, e, portanto, não devedor de satisfações aos pobres mortais, ou de quem tem algo de podre a esconder. Se suas atividades na consultoria eram límpidas, transparentes e honestas, nada mais fácil do que abri-las ao conhecimento do grande público.
O ministro da Casa Civil permanece calado e, por enquanto, conta com a blindagem governo. Blindagem que, a continuar, vai comprometer parlamentares, ministros e a própria presidente com uma causa duvidosa. Palocci traz para dentro do governo uma crise que certamente nem o mais pessimista dos petistas esperava tão cedo.
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