Rio de Janeiro, 11 de Agosto de 2026

Regime líbio de Gaddafi promete resistir 'até o último homem em pé'

O líder líbio, Muammar Gaddafi, vai enfrentar a revolta popular "até o último homem que estiver de pé", disse um de seus filhos nesta segunda-feira, após os protestos - antes confinados ao leste do país - chegarem a Trípoli, a capital.

Segunda, 21 de Fevereiro de 2011 às 10:10, por: CdB
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Uma coalizão de líderes muçulmanos líbios emitiu uma declaração dizendo que é obrigação de todo o muçulmano se rebelar contra o governo líbio. "Eles demonstraram total impunidade arrogante e contínua, e até mesmo intensificaram seus crimes sangrentos contra a humanidade. Portanto, eles demonstraram total infidelidade à orientação de Deus e Seu amado Profeta (que a paz esteja com ele)", disse o grupo, chamado de Rede dos Ulemas (sábios religiosos) Livres da Líbia. "Isto os torna não merecedores de nenhum apoio ou obediência e faz com que a rebelião contra eles por todos os meios possíveis seja uma obrigação de origem divina", diz o texto da declaração obtida pela agência inglesa de notícias Reuters nesta segunda-feira. 'Último homem em pé' O líder líbio, Muammar Gaddafi, vai enfrentar a revolta popular "até o último homem que estiver de pé", disse um de seus filhos nesta segunda-feira, após os protestos - antes confinados ao leste do país - chegarem a Trípoli, a capital. Manifestantes saíram às ruas, líderes tribais falaram contra Gaddafi, e unidades do Exército desertaram para a oposição, numa revolta que já matou mais de 200 pessoas. Um repórter da Reuters viu um incêndio na manhã desta segunda-feira na sede do Congresso Geral Popular, uma espécie de Parlamento. Benghazi (leste), onde os protestos começaram na semana passada, depois da prisão de um advogado ligado à questão dos direitos humanos, está na prática nas mãos dos moradores, segundo relatos de habitantes. Dezenas de pessoas foram mortas na cidade e em outras localidades do nordeste líbio na semana passada. Saif al Islam Khadaffi, filho do ditador, apareceu na televisão numa tentativa de simultaneamente ameaçar e acalmar as pessoas. Disse que o Exército vai impor a segurança a qualquer preço, para sufocar uma das revoltas mais sangrentas na atual onda de rebeliões do mundo árabe. – Nosso moral está elevado, e o líder Muammar Gaddafi está comandando a batalha em Trípoli. Nós estamos por trás dele, assim como o Exército líbio. Vamos continuar lutando até o último homem que estiver de pé, até mesmo à última mulher que estiver de pé (...). Não vamos deixar a Líbia para os italianos ou para os turcos – afirmou. Brandindo um dedo para a câmera, ele culpou exilados líbios por fomentarem a violência. Mas também prometeu um diálogo a respeito de reformas e aumentos salariais. Calma aparente Um morador de Trípoli disse à agência inglesa, pedindo para não ser identificado, que as ruas da capital estavam calmas na manhã desta segunda-feira. Não havia sinal da polícia, o que é raro na cidade. Esse morador relatou que na noite de domingo manifestantes anti-Gaddafi haviam sido substituídos por seguidores do governo, que ficaram até cerca de 5h na região da  praça Verde, a principal da capital. – Depois do discurso de Saif al Islam, o pessoal pró-Gaddafi, especialmente jovens, ficaram percorrendo as ruas, particularmente no centro, dando vivas a Gaddafi. Essa gente passou a noite toda acordada (...). Eu diria que havia centenas – disse. Mas a arenga de Saif al Islam pode não ser suficiente para aplacar a revolta contra Gaddafi, no poder desde 1969 - e alvo de uma ira que explodiu depois das recentes revoltas nos vizinhos Egito e Tunísia. – As pessoas aqui em Benghazi estão rindo do que ele está dizendo. É a velha história de sempre (com promessas de reformas), e ninguém acredita no que ele diz. Ele é um mentiroso, mentiroso, faz 42 anos que ouvimos essas mentiras –  afirmou à agência britânica de notícias BBC um advogado na segunda maior cidade do país, depois de assistir ao discurso. Os manifestantes em Benghazi fizeram a polícia e o Exército recuarem para seus quartéis, e aparentemente controlam a cidade. Prédios públicos foram incendiados e saqueados. – A segurança agora é feita pelo povo. Jovens com armas estão tomando conta da cidade. Não há forças de segurança em lugar nenhum – disse o advogado à TV Al Jazeera. Salahuddin Abdullah, que diz ser um dos organizadores do protesto, afirmou, também à Al Jazeera, que "em Benghazi há celebração e euforia, as pessoas estão em êxtase com a situação". – Agora está calmo, a cidade não está mais sob controle militar. Ela está completamente sob controle dos manifestantes – afirmou. Ele relatou que os manifestantes estão criando comitês de autogoverno para impor a ordem e distribuir cestas básicas. Ministros europeus de Relações Exteriores devem condenar a violência na Líbia durante sua reunião nesta segunda-feira, segundo uma nota conjunta. A França afirmou que a comunidade internacional precisa fazer tudo o que puder para evitar uma guerra civil na Líbia. Nos EUA, uma fonte oficial disse que o governo está analisando o discurso do filho de Gaddafi e considerando "todas as ações apropriadas". Petróleo A Wintershall, unidade de exploração de petróleo e gás natural da Basf, se preparava para interromper sua produção na Líbia e retirar os funcionários estrangeiros do país, no momento em que a violência se espalha no terceiro maior produtor africano de petróleo. Ao mesmo tempo, manifestantes antigoverno saíram às ruas da cidade de Ras Lanuf, sede de um uma refinaria de petróleo e de um complexo petroquímico da Líbia, informou o jornal líbio Quryna em seu website nesta segunda-feira. Citando empregados do local, o jornal informou que estava sendo criado um comitê especial de trabalhadores e moradores locais para proteger as instalações. A Wintersahll disse nesta segunda-feira que estava diminuindo sua produção de petróleo na Líbia, equivalente a 100 mil barris por dia. Empresas como a Royal Dutch Shell e a OMV anunciaram a retirada de seus funcionários estrangeiros. A norueguesa Statoil, a austríaca OMV e a anglo-holandesa Shell também tomaram medidas depois que manifestantes contrários ao governo foram mortos em Benghazi e revoltas se espalharam para a capital Trípoli durante o final de semana e nesta segunda-feira. A medida da Winterhall significaria uma queda considerável no fornecimento da Líbia, cujas exportações de petróleo se dirigem em sua maioria à Europa e cuja produção é de aproximadamente 1,6 milhão de bpd de petróleo bruto, o que coloca o país como o terceiro maior produtor africano -- depois da Nigéria e da Angola. A maioria das operações de produção de petróleo da Líbia está localizada no leste do país e ao sul de Benghazi -- a segunda maior cidade do país, que na segunda-feira parecia escapar do controle das forças leais a Muammar Gaddafi. A produção no campo de petróleo de Murza, administrada pela espanhola Repsol, não foi afetada por enquanto. As produções da Eni também não foram prejudicadas até o momento. Retirada imediata Dos cerca de 600 brasileiros que estão na Líbia, pelo menos 130 são funcionários da construtora Queiroz Galvão e encontram-se em uma das cidades mais tensas do país, Benghazi. A assessoria de imprensa da companhia informou à Agência Brasil que todos os funcionários “estão bem” e aguardam para seguir viagem em direção a Trípoli, capital líbia. Desde a véspear, o embaixador do Brasil na Líbia, George Ney Fernandes, aguarda autorização, pedida ao governo líbio para um avião fretado pela construtora pousar no aeroporto de Benghazi. Porém, a autorização ainda não foi concedida. Além dos funcionários da Queiroz Galvão, há  também integrantes das empresas Odebrecht e Petrobras. "A Queiroz Galvão informa que atualmente tem 130 colaboradores brasileiros trabalhando em projetos e obras na Líbia. Todos estão bem e está sendo providenciada sua transferência de Benghazi para Trípoli, capital do país”, diz a nota da construtora. Outro país que busca retirar seus cidadãos o quanto antes é a França. As escolas escolas francesas na Líbia foram fechadas e o governo francês pede que seus cidadãos que voltem para casa, disse o ministro de Assuntos Europeus, Laurent Wauquiez nesta segunda-feira, depois que as manifestações contra o governo local chegaram à capital líbia, Trípoli. Wauquiez disse que cerca de 30 franceses foram retirados da cidade de Benghazi, no leste do país, onde está havendo uma violenta repressão às manifestações de protesto. Eles foram levados para Trípoli. – Nós estamos tentando organizar as coisas de modo que as escolas francesas sejam fechadas agora. Estamos encorajando as famílias e cidadãos franceses em Trípoli e na Líbia em geral a voltem para a França – declarou Wauquiez à rádio Europe 1.
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