Eles embarcaram em Amã, no fim da tarde, e chegam ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, às 5h30 de sexta-feira. De lá, segundo informações prévias, parte do grupo seguiria para Porto Alegre.
Todos eles fugiram do Iraque – a maioria de Bagdá – pouco depois da invasão americana, em 2003, quando milícias xiitas passaram a perseguir e matar palestinos no país.
Durante quatro anos, eles enfrentaram as temperaturas extremas do verão e do inverno no deserto da Jordânia, vivendo em tendas no campo de refugiados de Ruweished, a 70 km da fronteira iraquiano-jordaniana.
Negociação
A ida dos palestinos para o Brasil só foi possível depois de insistência de Brasília em relação à Autoridade Palestina, que prefere ver concentrados seus emigrantes em determinados países, como Canadá, Estados Unidos e Austrália.
Para o governo palestino, isto facilitaria a volta de palestinos no momento da eventual criação de um Estado palestino.
— Mas o governo brasileiro não desistiu. Disse à Autoridade Palestina que lamenta muito, mas que este é um problema humanitário, que é mais importante do que o lado político — afirmou Anne-Marie, do Acnur.
Parte dos palestinos ficará em São Paulo, e outra parte, para o Rio Grande do Sul. O Acnur e o Conare têm a função de facilitar a adaptação dos refugiados no Brasil, para evitar o que ocorreu com um grupo de afegãos que viviam no Irã em 2001 e se estabeleceram em Porto Alegre.
Devido à diferença cultural, a maior parte dos 25 refugiados voltou para o Afeganistão depois de algum tempo. O Acnur calcula que 15 mil palestinos ainda vivem no Iraque. Segundo a ONU, pelo menos 186 foram assassinados nos últimos anos. Quando os últimos refugiados palestinos deixaram Ruweished em rumo ao Brasil, o campo vai ser fechado.
Esperança
A notícia de que haviam sido aceitos pelo Brasil – e não por um país de língua inglesa, como o Canadá ou a Nova Zelândia, destino de outros refugiados – causou felicidade, mas também certa apreensão no grupo.
— Alguns revelaram medo em ir para São Paulo, porque ouvem dizer que é uma cidade muito violenta — disse à BBC Brasil Anne-Marie Deutschlander, representante do Acnur que acompanhou a trajetória dos palestinos desde 2003.
As orientações sobre o Brasil que os palestinos começaram a receber há três meses, quando o Acnur anunciou a transferência, parece ter amenizado o receio de pelo menos alguns.
— Isso aqui é Guantánamo-Ruweished. Nós não podemos sair para nada, apenas se estivermos doentes e, mesmo assim, só com escolta policial — disse o ex-motorista de táxi Ahmed Mostafa Mahmoud, que mora no campo com a mulher e dois filhos – incluindo Maan, de três anos, que nasceu no campo.
O pouco contato que os refugiados têm com o mundo exterior ocorre por meio da televisão por satélite e telefones celulares pré-pagos, que parentes e amigos ajudam a abastecer com créditos quando vão visitá-los.
— Nós não fazemos nada aqui e isso durou quatro anos. Estamos todos muito cansados deste lugar. Praticamente já conheço estes livros de cor — diz o professor de língua Árabe Safah Ghazi Kamel, 32, mostrando os livros de poesia que conseguiu carregar com ele quando fugiu.
O professor nasceu em Bagdá e viveu sua vida toda na capital iraquia