O Brasil começa a receber nos próximos dias um grupo de pouco mais de cem refugiados palestinos que há quatro anos trocaram a vida urbana da capital do Iraque, Bagdá, pela luta por sobrevivência no meio do deserto na Jordânia.
— É o fim de uma longa espera para eles — diz Anne-Marie Deutschlander, do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que acompanhou a situação dos palestinos desde abril de 2003, quando a maioria fugiu do Iraque após a queda de Saddam Hussein.
— Eles queriam saber onde iriam ser reassentados no Brasil, como é o clima, se iria ser em casa ou apartamento, como poderiam trabalhar — conta o oficial de reassentamento José Francisco Sieber Luz Filho, enviado pelo Acnur brasileiro para ajudar na adaptação cultural dos palestinos no Brasil.
Os palestinos, que passaram quatro anos vivendo em tendas no meio do deserto, ficaram felizes, mas apreensivos, quando receberam a notícia de que iriam para o Brasil. Ao mesmo tempo em que foram distribuídos doces para comemorar e muitos choraram de alegria, surgiram dúvidas sobre um país desconhecido, com uma língua que ninguém sabia falar.
— Alguns revelaram medo em ir para São Paulo, porque ouvem dizer que é uma cidade muito violenta. O argumento que eu dou para eles é muito simples: ‘Vocês esqueceram que vieram de Bagdá?’ — diz Anne-Marie. Os dois estados que receberão os refugiados, que desembarcam no Brasil na sexta-feira, são Rio Grande do Sul e São Paulo.
Iraque
Muçulmanos sunitas, assim como o ex-presidente iraquiano, os palestinos que chegaram ao Iraque após as guerras de 1948 e 1967 viviam sob proteção até o início da guerra no país. Segundo o Acnur, cerca de 25 mil palestinos moravam no Iraque antes de 2003 e, apesar de não ter sido possível fazer um levantamento muito preciso após o início do conflito, acredita-se que 15 mil continuem no país.
— Eles passaram a ser perseguidos e muitos deles foram e continuam sendo mortos pelos xiitas, que querem vingança depois de anos de opressão do regime de Saddam — explica Imran Riza do Acnur.
A solução, adotada também por milhares de iraquianos ameaçados pela violência sectária, foi deixar o conforto da casa e o trabalho para trás e sair do país, no que está sendo considerado pelo Acnur a maior movimentação de uma população no Oriente Médio desde que os palestinos foram obrigados a se deslocar com a criação do Estado de Israel, em 1948.
Muitos foram para a Jordânia, que já tinha recebido milhares de iraquianos após a Guerra do Golfo, em 1991. Estima-se que o país abrigue atualmente cerca de 700 mil iraquianos e 1,5 milhão de palestinos.