Rio de Janeiro, 06 de Fevereiro de 2026

Reflexões sobre as causas de desastres do capitalismo

Bernardo Kucinski: Tragédias como a da TAM, da Gol, do Concorde em 2000, dos petroleiros nos anos 70, da plataforma P-37 e da barragem da mineradora Rio Pomba tiveram causas específicas, mas uma é sistêmica: a ganância pelo dinheiro. (Leia Mais)

Sábado, 21 de Julho de 2007 às 09:13, por: CdB

Vão dizer que eu estou exagerando. Lá vem ele de novo, culpando o capitalismo por tudo, até mesmo por essa fatalidade que foi a tragédia do avião da TAM. Além do mais, causada provavelmente pela condição da pista, negligência da Infraero, ou seja, culpa do Lula...

Mas será que o exagero não está em atribuir um acidente desse porte a uma pista apenas molhada num dia de chuva leve? Houve certamente uma causa material, específica, ou um conjunto de causas. E a pista pode ter sido uma delas. Mas só a pista não explica o desastre. Houve dezenas de outras decolagens e aterrissagens debaixo de chuva na mesma pista.

O grande desastre com o Concorde em agosto de 2000, que levou ao abandono desse supersônico três anos depois, também aconteceu por uma seqüência incrível de causas: a primeira delas, um pequeno pedaço de metal desprendido de um pneu numa decolagem anterior e que passou desapercebido na varredura de rotina da pista.

Há outro elemento comum entre os desastres do Concorde e do Airbus: o gigantismo dos aviões. O Concorde era um gigante com capacidade de 100 passageiros e 185 toneladas na decolagem. Foi derrubado por um pedaço de arame, não por causa do tamanho do arame, por causa do tamanho do avião. O Airbus 320 também é um gigante. Pode decolar com até 77 toneladas.

Os engenheiros dizem que ele precisa de 2.200 metros de pista para pousos com margem razoável de segurança. A pista de Congonhas tem 1939 metros. Dá para pousar. Pousou inúmeras vezes. E tudo indica que o desastre não aconteceu por causa do tamanho da pista ou da condição da pista. O avião nem conseguiu frear, portanto nem chegou a derrapar.

Mas a permissão para o Airbus operar em Congonhas, sem muita margem de segurança, não é mero acaso, é uma imposição do mercado. Da voracidade da demanda por assentos em vôos regionais. Da ganância. O Concorde também nasceu de pesquisas de mercado. Surgiu no apogeu das multinacionais americanas. Tomar o café da manhã em Nova York e almoçar em Paris, mesmo voando contra o fuso horário. Essa era a idéia. Uma demanda do mercado.

Na década de 70, sucediam-se desastres com navios petroleiros. Colidiam com terminais e outros navios, provocando derrames enormes de óleo, matando peixes, poluindo quilômetros de praias. Cada desastre tinha sua causa específica ou conjunto de causas. Mas o fator comum a todos eles era o tamanho dos petroleiros, gigantes de até 400 mil toneladas, verdadeiros Titanics possuídos de tanta inércia que uma correção de rumo tinha que ser decidida um dia antes. A maioria eram petroleiros de bandeira liberiana; artifício usado pelos armadores para manter tripulações mínimas e burlar rigores de fiscalização. Ganância da indústria do petróleo, a serviço da voracidade americana por petróleo barato do Oriente Médio.

Seis anos atrás, um incêndio eclodiu a maior das plataformas marítimas da Petrobrás, a P-37, do campo de Roncador. Seguiram-se explosões. Morreram dez operários e a plataforma foi totalmente perdida. O desastre teve causas específicas. Ventilação deficiente, despreparo no combate ao fogo. Mas o fator sistêmico do desastre foi a terceirização da exploração de petróleo para reduzir custos trabalhistas e, de quebra, enfraquecer os sindicatos dos petroleiros, vistos pela direção neoliberal da Petrobrás como uma “elite” operária. Neoliberalismo e ganância.

No começo deste ano, rompeu-se uma barragem da mineradora Rio Pomba, em Minas, inundando e enlameando seis cidades, rio abaixo, até o Estado do Rio de Janeiro. O desastre teve causas específicas, a principal delas a forte concentração de chuvas naqueles dias. Mas o fato é que a barragem de oito metros de altura e capacidade para 200 milhões de litros foi construída sem licença ambiental e não possuía mecanismos para o escoamento. Economia, ganância e negligência do Estado, esvaziado por décadas de neoliberalismo.

Em janeiro deste ano, um desabamento engoliu sete pessoas nas ob

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