Rio de Janeiro, 12 de Agosto de 2026

Reflexão sobre as eleições portuguesas

Quinta, 17 de Fevereiro de 2011 às 07:36, por: CdB

O discurso dos candidatos deixou transparecer a sua adesão à engrenagem responsável pelas mazelas do povo português

17/02/2011

 

Miguel Urbano Rodrigues

Mais de 52% dos portugueses abstiveram-se de votar nas eleições para a Presidência da República. O discurso dos candidatos, com a exceção de Francisco Lopes, deixou transparecer a sua adesão à engrenagem responsável pelas calamidades que atingem a humanidade e, obviamente, o povo português. Abstiveram-se de ligar a crise ao capitalismo.

Cavaco Silva foi, como se esperava, eleito. Foi monótono no discurso farisaico, de autoelogio, insistindo em proclamar a sua sabedoria e sobretudo o seu eticismo de político que viveria para servir a Pátria.

Francisco Lopes, foi, repito, a exceção. Não recordo uma campanha comunista às Presidenciais que tenha tocado tão profundamente as bases do Partido Comunista. O discurso do candidato foi de uma seriedade e austeridade exemplares na fidelidade a uma ideologia e um projeto cujo objectivo é o desaparecimento do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista. Não fez concessões ao sistema, não procurou conseguir votos para ganhar simpatias de camadas da pequena burguesia contaminadas pelas engrenagens eleitorais.

Mas Portugal está na Europa e não na América Latina onde a consciência antiimperialista é muito forte, o que permitiu nos últimos anos a eleição de presidentes com um discurso antineoliberal, crítico da política dos EUA. No espaço da União Europeia isso não é possível.

As eleições promovidas no quadro de instituições criadas pela burguesia e por ela controladas para funcionarem em beneficio exclusivo dos seus interesses, cabe dizer, do grande capital, fecham a porta a situações como aquelas que levaram à Presidência Hugo Chávez, na Venezuela e Evo Morales, na Bolívia, ou mesmo Lula no Brasil.

Que fazer, então, se no horizonte a perspectiva é a do rodízio de governos do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, ambos neoliberais, submissos a todas as exigências do capital financeiro nacional e internacional.

As gigantescas manifestações de protesto contra a política calamitosa do governo do PS confirmaram que o movimento popular está em rápida ascensão e que a consciência política dos trabalhadores aumenta, forjada na luta em defesa de direitos e conquistas ameaçados pelo poder.

As massas não alimentam hoje a ilusão de que as coisas vão mudar pela via eleitoral. Nada esperam do Parlamento, controlado pela direita, embora neste a presença de uma forte bancada comunista seja muito importante desde que funcione, sem concessões, como alavanca da luta de massas.

A campanha eleitoral de Francisco Lopes terá, creio, contribuído para clarificar a consciência, ainda difusa, de que a ruptura com a política que empurra o país para a bancarrota exige, a prazo, uma ruptura com o próprio sistema, isto é, o capitalismo.

Mas, acreditar numa revolução social em Portugal em prazo previsível seria uma atitude romântica. Não existem para isso condições subjectivas mínimas num país semicolonizado pelos grandes da União Europeia.

Essa realidade não justifica posturas pessimistas. As revoluções não têm data no calendário. São o desfecho de processos moleculares; amadurecem lentamente, distanciadas de modelos importados, inseparáveis de fatores que diferem muito em cada sociedade. Aliás, com poucas exceções, as grandes revoluções irromperam e venceram impondo-se contra a lógica aparente da História.

Os acontecimentos da Tunísia e do Egito, o despertar repentino do mundo árabe convida a uma reflexão profunda. Um rebelde não se transforma de um dia para outro num revolucionário, sobretudo quando nas sociedades a contestação frontal do Poder tem um carácter espontaneísta, pela ausência de partidos revolucionários com implantação popular.

Qualquer paralelo com Portugal seria descabido. Nem por isso são menos importantes para os portugueses progressistas as lições que essas explosões sociais transmitem.

A mais importante é a de que as massas, quando se mobilizam e atuam como sujeito da História contra aqueles que as oprimem, são irresistíveis.

 

Miguel Urbano Rodrigues é escritor português.

Publicado originalmente na edição 415 do Brasil de Fato.

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