Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2026

Reencontros com a história

Por Flávio Aguiar - A Alemanha enfrenta uma série de choques de "reencontros com a história". São acontecimentos que se abrem para o século XXI, mas que trazem à tona dramas e até enigmas do século XX e de uma das histórias nacionais mais dramáticas que a humanidade já conheceu. (Leia Mais)

Terça, 23 de Dezembro de 2008 às 08:41, por: CdB

Enquanto governo, trabalhadores, executivos, banqueiros, bancários, correntistas, todos enfim se debatem com o fantasma mais que presente da recessão que se avizinha, a Alemanha também é varrida por uma série de choques de “reencontros com a história”.

São acontecimentos que se abrem para o século XXI, mas que trazem à tona dramas e até enigmas de um século XX e de uma das histórias nacionais mais dramáticas que certamente a humanidade já conheceu.

Comecemos pela história mais recente. Declarações de dois generais e um coronel norte-americanos sobre a possível participação de dois agentes do serviço secreto alemão (Bundesnachrichtendienst – BND) na preparação da invasão do Iraque em 2003, publicadas pela revista Der Spiegel, lançaram um verdadeiro furacão no já agitado cenário da política alemã, com vistas às próximas eleições gerais previstas para 2009. Os oficiais foram os generais Tommy Franks, comandante geral da invasão; James Marks, chefe do setor de inteligência; o coronel foi Carol Stewart, do mesmo setor.

Os três enalteceram os serviços prestados por dois agentes alemães em Bagdá, no período que antecedeu a invasão, passando informações preciosas para o serviço secreto norte-americano. O general Marks foi ao ponto de dizer que eles deveriam ser considerados heróis de guerra. De fato, pelas informações do Spiegel (Espelho, em alemão), Marks considera os dois – Reiner Mahler e Volker Heinster (é claro que codinomes, para usar o jargão da área) – como merecedores da mais alta condecoração de guerra concedida pelos EUA a estrangeiros. As suas informações eram tidas pelo serviço de inteligência norte-americano como mais precisas e relevantes do que até mesmo as da CIA.

Ocorre que, na época, a posição oficial do governo alemão, dirigido pelo chanceler social-democrata Gehrard Schröder, era contra a guerra, não seguindo os exemplos da Grã-Bretanha de Tony Blair e da Itália de Berlusconi. Ocorre ainda que o chefe de gabinete do governo naquela época era o também social-democrata Frank-Walter Steinmeier, atual ministro de Relações Exteriores no governo de coalizão liderado pela chanceler Ângela Merkel, da CDU (União Democrata Cristã). Pelo mapa administrativo alemão, mais até do que Schröder ou até do que o então ministro de Relações Exteriores Joschka Fischer, se alguém poderia e até deveria saber em detalhe o que fazia o BND, esse político era Steinmeier.

Além da “denúncia elogiosa” dos militares norte-americanos lançar dúvidas sobre a credibilidade de Steinmeier no passado, ela lança também dúvida sobre o futuro, já que ele está indicado como o virtual candidato do SPD (os social-democratas) para concorrer com Merkel, que vai tentar a reeleição. O caso dos agentes alemães já vinha sendo objeto de debate no Parlamento alemão desde 2006, mas agora literalmente “a casa pegou fogo”, e a imprensa também. Curiosamente, são os partidos e os jornais mais conservadores que mais levantam críticas sobre a posição e as atitudes de Steinmeier, como a CDU, o direitista FPD (Freie Partei Deutschlands), e jornais como o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt e o Financial Times Deutschland. Já o Süddeutsche Zeitung, tido como de centro-esquerda, assumiu uma posição mais cautelosa, lembrando que Steinmeier ou nem mesmo Schröder, na época, poderiam se opor a qualquer coisa que os norte-americanos fizessem com ou sem agentes alemães.

O segundo caso que cai como tempestade sobre o cenário alemão é a libertação de Christian Klar, o penúltimo remanescente na prisão da RAF – Rote Armee Fraktion, Fração do Exército Vermelho – controverso grupo guerrilheiro que agitou a Alemanha sobretudo durante os últimos 30 anos do século passado. A libertação de Klar, depois de 26 anos de prisão, provocou as reações mais acaloradas, sobretudo por duas razões: a primeira foi uma recente declaração sua de que não se arrependia do que tinha feito, o que envolveu o assassinato de várias pessoas, entre policiais, políticos e até um alto executivo de empresa alemã, além da colocação de bombas e outras atividades consideradas terroristas.

O outro motivo é a exibição do mais que controverso filme de Uli Edel, O complexo Baader-Meinhof, sobre a história do grupo e a Alemanha dos anos 60 e 70, e sua indicação para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Baader-Meinhof evoca os nomes de Andréas Baader e Ulrike Meinhof, ambos membros fundadores da RAF, que morreram na prisão, num dos episódios também mais controversos da recente história alemã.

Na imprensa daquela época não se usava o nome RAF para designar o grupo; ao invés, dizia-se quase sempre "Grupo” ou mesmo “Gangue Baader-Meinhof”, o que naturalmente os deslegitimava do ponto de vista político.

Há várias complicações em torno deste caso, a começar pela versão de que a Stasi, polícia política da então Alemanha Oriental, apoiava logisticamente o grupo. Também as mortes de Ulrike, Baader, e mais dois militantes do movimento, na prisão de Stammheim, considerada de segurança máxima, é objeto de discussão. A versão oficial aponta o suicídio. Ulrike foi encontrada enforcada em sua cela, em 1976. Em 1977, logo após um fracassado seqüestro para liberta-los, os outros três, Baader, Gudrun Esslin e Jan Carl Raspe, junto com outra militante, Irmgard Möller, teriam feito um pacto de morte, matando-se uns aos outros com armas de fogo e facadas. Há muitas questões levantadas sobre essa versão oficial, sobre como eles teriam procedido (por exemplo, Baader era canhoto, e tinha manchas de pólvora na mão direita) e sobre como teriam, numa prisão de segurança máxima, acesso às armas, algumas privativas das Forças Armadas. Por informações mais antigas, Irmgard Möller, a única que sobreviveu ao “suicídio coletivo”, e que hoje vive incógnita (ao que parece em Hamburgo), continua negando a existência desse pacto de morte, e apresentado a versão de que houve uma “execução extra-judicial”.

O terceiro caso se deu na cidade de Passauer, no sul da Alemanha, perto da fronteira com a Áustria. Na região se encontra reconhecidamente um núcleo mais organizado do movimento neonazista. Recentemente um de seus líderes morreu, e foi enterrado com a bandeira nazista no caixão. Obedecendo à legislação alemã, o chefe de polícia local, Alois Mannichl, ordenou a exumação do corpo e a retirada da bandeira. Na semana passada, quando abria a porta de sua residência, ele foi abordado por dois homens e um deles, aos brados de “seu porco esquerdista, você nunca mais perturbará nossos mortos” deu-lhe várias facadas. O chefe de polícia está fora de perigo, mas o caso levantou a tese de que a política alemã como um todo não está, e que os neonazistas vêm demonstrando pelo menos cada vez mais ousadia.

Até o momento os seguidos atentados por eles cometidos tinham por alvo judeus, sinagogas, cemitérios judeus, estrangeiros de um modo geral, sobretudo, negros e turcos, e homossexuais. É a primeira vez em muito tempo que atacam um chefe de polícia, embora tenha havido casos graves de ameaças anteriores, que levaram à remoção de autoridades policiais por eles visadas. Levantou-se a discussão sobre a conveniência ou não de se proibir o partido considerado neonazista da Alemanha (NPD – Neue Partei Deutschlands), ao mesmo tempo em que houve também quem declarasse que agora, atacando uma autoridade, “os neonazistas se igualavam aos terroristas de esquerda”.

Trata-se, de todo modo, de um final de ano muito agitado nesta Alemanha, em que o passado dramático vem recobrindo com suas cicatrizes e suas feridas ainda abertas as visões do futuro que, por si só, já é problemático graças à crise que, como se diz na minha terra natal, “é coisa feia e vem se debruçando”.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.

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