Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026

Redivisão do Pará: 2 e não 3 Estados?

Segunda, 11 de Julho de 2011 às 08:45, por: CdB

Se a pesquisa Vox Populi estiver correta, a redivisão doEstado do Pará ainda é um tema em aberto. Apenas 42% são contrários à divisãoterritorial para a criação de dois novos Estados, de Carajás e Tapajós,enquanto 37% dizem que votarão a favor dessa mudança no plebiscito de 11 dedezembro. Como a margem de erro da pesquisa é de 2,8% para cima ou para baixo,na hipótese mais pessimista para os que querem deixar tudo como está, osemancipacionistas ganhariam a votação.

Mas 22% dos entrevistados pelo Vox Populi disseram que aindanão têm opinião formada. Essa grande margem de indecisos abre perspectivas parao trabalho de convencimento através do marketing e outras formas de influenciara opinião pública pelos próximos cinco meses.

Se dependesse apenas da capital, não haveria qualquerdúvida: o Pará continuaria com seus 1,2 milhão de quilômetros atuais, como asegunda maior unidade federativa brasileira. Em Belém, 67% do eleitorado seriamcontrários à redivisão. O que indicaria outra característica importante dasituação atual: o interior poderia decidir a sorte do plebiscito.

Os números causaram surpresas. Exigem outra pesquisa parachecagem. O jornalista Paulo Bemerguy se referiu no seu blog a uma pesquisa doIbope encomendada pelo governo, com resultados mais próximos do que é apresunção geral, inclusive entre os que levantam as bandeiras dos dois novosEstados: de que a rejeição é maior do que a registrada pelo Vox Populi. MasBemerguy não pôde apresentar resultados concretos da sondagem do Ibope,guardada pelos que a encomendaram.

Não se sabe também se é possível acessar a íntegra dotrabalho do Vox Populi. A edição de O Liberal do dia 3, que divulgou apesquisa, por encomenda do jornal, não diz que ela foi registrada no TRE(Tribunal Regional Eleitoral), conforme a exigência legal para sua divulgação.Certo ceticismo quanto à fidelidade da aferição tem seu fundamento em outroresultado das entrevistas realizadas pelo Vox Populi entre 18 e 22 de junho,junto a 1.200 pessoas, em Belém e 58 municípios do interior, dos 143 que o Parápossui (a relação dos municípios também não foi divulgada, assim como o pesorelativo de cada um).

De acordo com Vox Populi, 45% dos leitores de jornal no Parálêem O Liberal, enquanto apenas 28% preferem O Liberal e 10% fazem sua opçãopelo Amazônia, o segundo jornal diário dos Maioranas. Os dados do IVC(Instituto Verificador de Circulação) dizem o contrário: que o líder do mercadoé o Diário do Pará. O IVC é uma fonte muito mais confiável e aceita sobrecirculação real de jornais do que o Vox Populi ou qualquer outro instituto de pesquisa.Logo, o resultado não merece crédito, por estar em contradição radical com asauditagens do IVC. O grupo Liberal se desligou do instituto depois que suasfraudes nos dados sobre circulação foram constatadas. Hoje, os jornais daempresa não têm verificação regular de sua circulação.

A pesquisa sobre a redivisão pode ter sofrido algum tipo demanipulação, como parece provável ter acontecido na apuração da circulação dosjornais e na medição do índice de credibilidade das três publicações diáriasque circulam em Belém? É possível. Admitindo-se, contudo, que neste particulara pesquisa retrate a realidade (embora causando surpresa aos observadores daquestão), pode-se intuir que a emancipação do Tapajós parece mais viável do quea de Carajás.

Infelizmente, por um erro metodológico clamoroso, o VoxPopuli submeteu aos entrevistados uma questão genérica e imprecisa. Perguntouse, em caso de plebiscito, o eleitor era favorável ou contra "a divisão do Paráem três estados”. A cédula eleitoral, entretanto, individualizará as opções porCarajás e Tapajós. O eleitor votará duas vezes, não sendo obrigado, se forfavorável a uma nova configuração territorial do Pará, a atrelar Tapajós aCarajás.

Esse detalhe importantíssimo talvez explique por que, deimediato, os defensores do Tapajós anunciaram que não iriam recorrer da decisãodo Tribunal Superior Eleitoral de consultar toda a população do Pará e nãoapenas a que reside nas duas regiões propostas para emancipação. Os tapajônicosdevem ter percebido que há uma simpatia maior por sua causa do que pela deCarajás, tanto em Belém como nas áreas que remanesceriam da redivisão comoparaenses.

Essa parte do Pará tem mais afinidades com o Tapajós do quecom Carajás. Não só porque nela estão instaladas muitas famílias oriundas doBaixo-Amazonas, que continuam fiéis à bandeira do novo Estado, como porque acausa, defendida há mais de um século, parece mais justa e natural, comfundamento mais forte na posição geográfica de Santarém, que já foi a terceiramaior cidade da Amazônia, imprensada a meio caminho entre Belém e Manaus.

O Tapajós é constituído majoritariamente por paraenses degerações ou imigrantes que se enraizaram na região, enquanto em Carajás adominância é de imigrantes de outros Estados, sobretudo do vizinho (mas rival)Maranhão, com uma tendência (real ou atribuída) de se apossar de recursosnaturais que seriam usurpados do Pará, justamente quando começam a render maisaos nativos.

É de se prever que se os defensores de Carajás prosseguiremna luta judicial contra o plebiscito em todo Pará, a campanha emancipacionista,que vinha sendo conduzida em conjunto, perca essa unidade. É provável queTapajós comece a se diferenciar e se distanciar de Carajás. Assim procedendo naperspectiva de que, se o plebiscito trouxer mudanças, dele saiam dois Estados enão três.

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