Rio de Janeiro, 06 de Novembro de 2026

Redes Sociais e mobilizações

Segunda, 19 de Setembro de 2011 às 08:17, por: CdB

A7 de setembro, data da independência do Brasil, ocorreu algo novo: as ruasforam ocupadas por mobilizações populares convocadas através da internet.

Aspessoas saíram em passeatas para protestar contra a corrupção, o sucateamentoda educação, e por reforma agrária e auditoria da dívida pública, entre outrostemas. E fizeram questão de imprimir às manifestações caráter apartidário. Quemse atrevesse a desfilar com sigla de partido político era imediatamenterechaçado. Ali, no 7 de setembro, uniram-se o Grito dos Excluídos e o grito dosindignados.

Asruas do Brasil, até então acostumadas a ver, nos últimos tempos, apenasmanifestações de evangélicos, gays e defensores da liberação da maconha,voltaram a ser palco de pressão política e reivindicação popular.

Opoder convocatório das redes sociais é inegável. Elas possuem uma capilaridadeque supera qualquer outro meio de comunicação. E carecem de censura ou editoraçãofalaciosa.

Há,contudo, duas limitações que podem afetar seriamente os efeitos da mobilizaçãointernáutica. A primeira, a falta de proposta. Não basta gritar contra acorrupção ou aprovar a faxina operada pela presidente Dilma Rousseff. É precisoexigir reforma política, e propor critérios e métodos.

Reformapolítica com o atual Congresso – composto, em sua maioria, por parlamentarescapazes de absolver uma deputada federal flagrada e filmada recebendo propina –é acreditar que Ali Babá é capaz de punir os 40 ladrões...

Épreciso, primeiro, reformar, ou melhor, renovar o Congresso para, em seguida,obter reforma política minimamente decente. De modo que sejam instituídosmecanismos que ponham fim às duas irmãs gêmeas madrinhas da corrupção: a imunidadee a impunidade.

Essarenovação deve se iniciar, ano que vem, pela eleição de prefeitos e vereadores,todos submetidos ao crivo da Ficha Limpa, e pressionados a apresentar metas eobjetivos, como propõe o Movimento Nossa São Paulo.

Asegunda limitação é o caráter apartidário das manifestações. Em si, é positivo,pois impede que algo nascido da mobilização cidadã venha a se converter empalanque eleitoral deste ou daquele partido político.

Porém,na democracia não se inventou algo melhor para representar os anseios dapopulação que partidos políticos. Eles fazem a mediação entre a sociedade e oEstado. O perigo é as manifestações não resultarem na eleição de candidatoseticamente confiáveis e ideologicamente comprometidos com as reformas deestruturas, como a política e a agrária. Ou desaguar no pior: o voto nulo.

Quemtem nojo de política é governado por quem não tem. E os maus políticos torcempara que tenhamos todos bastante nojo de política. Assim, eles ficam em paz,entretidos com suas maracutaias, embolsando o nosso dinheiro e ampliando suasmordomias e seus patrimônios.

Asredes sociais são, hoje, o que a ágora era para os gregos antigos e a praçapara os nossos avós – local de congraçamento, informação e mobilização. Foramelas que levaram tunisianos e egípcios às ruas para derrubar governosdespóticos. São elas que divulgam, em tempo real, as atrocidades praticadaspelas tropas usamericanas no Iraque e no Afeganistão.

Asredes sociais têm, entretanto, seu lado obscuro e perverso: a prostituição virtualde adolescentes que exibem sua nudez; o estímulo à pedofilia; a difusão dematerial pornográfico; o incitamento à violência; a propaganda de armas; oroubo virtual de senhas de cartões de crédito e contas bancárias.

Esperonão tardar o dia em que as escolas introduzirão em seus currículos a disciplinaRedes Sociais. Crianças e jovens serão educados no uso dessa importanteferramenta, aprimorando o olhar crítico, o senso ético e, em especial, asíntese cognitiva, de modo a extrair sentidos ou significações do incessantefluxo de informações e dados.

Graçasà internet, qualquer usuário pode se arvorar, agora, em sujeito político eprotagonista social, abandonando a passivo papel de mero espectador. Restavencer o individualismo e o comodismo e sair à rua para congregar-se em forçapolítica.

[FreiBetto é escritor, autor do romance "Minas do Ouro” (Rocco), entre outroslivros. http://www.freibetto.org - twitter:@freibetto.
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