Alguns roubos e saques de obras de arte no Iraque foram espontâneos e aleatórios, mas outros foram planejados no exterior, segundo o arqueólogo McGuire Gibson, um dos 30 especialistas reunidos nesta quinta-feira, na Unesco, para adotar medidas de urgência destinadas a proteger o legado iraquiano. Alguns saqueadores "sabiam aonde iam", tinham "as chaves dos lugares" onde desejavam entrar e "iam direto a seu objetivo", afirmou. Tais roubos, ressaltou, "foram organizados no exterior" pela simples razão de que dentro do Iraque não há dinheiro para pagá-los, explicou Gibson, presidente da Associação Americana para a Pesquisa em Bagdá. Há alguns anos, as redes organizadas de tráfico de obras de arte se interessavam pelo patrimônio iraquiano e agora encontraram uma ocasião adequada para agir, continuou. Antes do embargo não existia este tipo de atividade, mas depois, pouco a pouco, os iraquianos, para poderem dar de comer a suas famílias, começaram a colaborar com os traficantes e a buscar objetos para vender, acrescentou. De fato, "há marchands que dizem que podem lhe oferecer" as obras proibidas que você desejar e uma multidão de colecionadores que adorariam inclui-las em seus acervos". Quanto aos saques aleatórios, explicou Gibson, foram realizados sobretudo por adolescentes e opositores do regime de Saddam e os artigos roubados por eles podem reaparecer mais facilmente. Entre as peças mais valiosas, que, segundo se acredita, desapareceram durante o conflito, o especialista citou as 80 mil tabuletas de argila com escritura cuneiforme que estavam na cidade de Hatre, único lugar iraquiano incluído na lista do Patrimônio da Humanidade da Unesco. Gibson se disse convencido de que "com um esforço real, caso se pudesse contar com uma boa polícia, se poderia terminar bastante depressa com o problema" dos saques praticados no Iraque. Na reunião, soube-se que o Ministério francês das Finanças havia expropriado um conjunto de peças procedentes da região, possivelmente do Iraque, e, de acordo com alguns especialistas, há rumores de que já se podem comprar peças iraquianas no Irã e em vários países europeus. Gibson considerou que a perda no Iraque foi enorme, embora por enquanto não se saiba exatamente sua dimensão, já que, por exemplo, ignora-se se foram abertas as caixas-fortes do também saqueado Banco Nacional de Bagdá, para onde foram levadas algumas valiosas peças. Além disso, foi anunciado recentemente que muitos museus de arte "também foram invadidos", entre eles o que possuía a mais bela coleção de peças mesopotâmicas, explicou. A professora iraquiana Salma El Radi, da Universidade de Nova York, lembrou que desde 1958 o Iraque e os países da Liga Árabe contam com uma lei que proíbe a exportação de seus bens culturais. Em um comunicado conjunto, os 30 especialistas reunidos pela Organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) condenaram os graves danos sofridos pelo patrimônio iraquiano e sugeriram uma lista de recomendações dirigidas a "todos os responsáveis pela ordem civil no Iraque". Nela, propõem que todos os museus, bibliotecas, arquivos, monumentos e jazigos sejam imediatamente vigiados; que se proíba, também de imediato, a exportação de objetos antigos, obras de arte, livros e arquivos, assim como o comércio internacional de bens culturais iraquianos. Além disso, fizeram um apelo para a devolução voluntária dos bens roubados ou exportados ilegalmente, pediram que uma equipe de especialistas avalie a dimensão dos danos e perdas causados e que sejam feitos esforços em escala internacional para facilitar o trabalho das instituições culturais iraquianas. Quanto às contribuições financeiras oferecidas ao Fundo Especial para o Patrimônio Cultural Iraquiano criado pela Unesco, agradeceram os 400 mil dólares concedidos pela Itália, única ajuda concreta recebida até o momento. Os especialistas afirmaram ainda que os Estados Unidos garantiram que vão a
Redes organizadas teriam participado dos saques no Iraque
Quinta, 17 de Abril de 2003 às 13:53, por: CdB