Acalmados, mas nem tanto, os ânimos entre o Brasil e os Estados Unidos, cabe refletir um pouco sobre o episódio. A opinião pública (que não passa de "opinião publicada", segundo Carlos Lacerda) mostrou que ainda resta algum patriotismo em nosso país. Mais do que em qualquer outra avaliação, esse patriotismo é revelado nas cartas enviadas aos grandes jornais pelos leitores. Poucos são os que, em nome de qualquer coisa, se insurgem contra a decisão do juiz.
O surpreendente é que colunistas, de assinatura prestigiada por seus patrões, tenham criticado o mérito da decisão do Poder Judiciário. Não entendem que a dignidade de uma nação é a dignidade de seus integrantes. Renan, em texto conhecido e sempre citado, disse, em conferência na Sorbonne, no final do século 19, que a pátria é a solidariedade cotidiana. A solidariedade nos faz indignados quando compatriotas são discriminados e humilhados no estrangeiro. Muitos turistas de classe média (porque os ricos são sempre identificados e louvados) já sentiram, de uma ou de outra forma, constrangimentos nos Estados Unidos e também na Europa. Mas, sobretudo os que foram, por uma ou outra circunstância, obrigados a viver algum tempo nesses países, sabem como é difícil conter a ira frente ao desdém sofrido, quando percebem o sotaque do terceiro mundo ou o tisnado da face identifica a miscigenação.
Os Estados Unidos decidiram exigir minuciosa identificação dos estrangeiros para os quais se pede o visto de entrada no país. O Brasil está agindo da mesma forma, uma vez que os cidadãos dos Estados Unidos - pelo princípio da reciprocidade - necessitam de visto para vir ao Brasil. Trata-se, apenas, da extensão de uma reciprocidade já existente.
São razoáveis as queixas norte-americanas de que o procedimento é demorado, no Brasil, o que causa desconforto aos turistas. Cabe ao Brasil agilizar o processo, o que não é um bicho de sete cabeças. Mas cabe mais um reparo ao secretário de Estado Colin Powell: se o Brasil é um país inseguro, não é tão seguro assim o seu. Não fosse dessa forma, não haveria tanta paranóia contra o terrorismo em seu território.
Na realidade, os nossos pecados são comuns. Construímos sociedades em que o hedonismo e a ostentação tornam mais intolerável a desigualdade, não só no plano interno, como no convívio internacional. Os Estados Unidos são, mesmo sem levar em conta as ameaças terroristas, um país perigoso. Aqui, podemos morrer pelas balas errantes, nas ruas das grandes cidades. Ali, corremos o risco de morrer pelas balas certeiras dos competentes franco-atiradores, que disparam contra desconhecidos como se atirassem contra patos selvagens. Aqui, crianças, como esse desgraçado "Catatau", matam para roubar e comer. Lá, crianças chacinam seus colegas de escolas, pelo simples prazer de matar. Aprenderam a atirar nos computadores, com os jogos assassinos, e se encontram envenenadas por uma civilização assentada sobre a violência e orientada pelo mito da invencibilidade.
Em lugar de disputas inócuas, deveríamos buscar nova ordem internacional, de forma a que pudéssemos andar livremente nas ruas do mundo inteiro, sem medo de pivetes famintos, nem de loucos armados.
Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).
Reciprocidade
Por Mauro Santayana - Em lugar de disputas inócuas, deveríamos buscar nova ordem internacional, de forma a que pudéssemos andar livremente nas ruas do mundo inteiro, sem medo de pivetes famintos, nem de loucos armados. (Leia Mais)
Segunda, 12 de Janeiro de 2004 às 06:46, por: CdB