Rio de Janeiro, 05 de Agosto de 2026

Racha na direita

Sexta, 18 de Março de 2011 às 10:35, por: CdB

Com o fenômeno do lulismo, partidos conservadores veem-se obrigados a mudar postura; DEM pode ser “extirpado”


18/03/2011


Renato Godoy de Toledo
da Redação




Com a terceira derrota nacional consecutiva, a direita partidária brasileira ainda não encontrou o seu rumo. O PSDB oscila entre a oposição light comandada por Aécio Neves, que tem exercido um papel muito aquém do esperado pelos conservadores, e o rancor representado pelo derrotado José Serra, que não tolera os afagos iniciais da grande mídia ao governo de Dilma Rousseff.

O DEM está em vias de ser extirpado, como sugeriu o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010. Mas, ironicamente, o caminho para a extinção do ex-PFL tem se dado pela via da auto-mutilação. Isso porque o prefeito paulistano Gilberto Kassab, o democrata com o maior cargo no país, sinaliza que sua história no partido chegou ao fim. Sua saída é dada como certa. Kassab deve trazer consigo lideranças regionais paulistas, como o deputado Rodrigo Garcia e o vice-governador Guilherme Afif.

O caminho mais provável é uma fusão de um setor do DEM, do PPS e até do PSDB com o PSB, formando um partido novo para a base aliada do governo Dilma. A nova legenda já teria até nome: Partido Democrático Brasileiro (PDB).

Segundo informações dos bastidores de Brasília, a movimentação de Kassab pode causar um estrago no núcleo duro da oposição de direita. Dos 44 deputados do DEM, especula-se que até 15 podem acompanhar o prefeito paulistano. O PPS de Roberto Freire pode perder 4 dos seus 12 deputados federais.

A hegemonia do PSDB no estado de São Paulo também estaria ameaçada, já que Kassab pode angariar diversos aliados na Assembleia Legislativa do Estado, além de contar com o vice do governador Geraldo Alckmin.

Concretizado esse movimento, Kassab seria o candidato da terceira via em 2014 contra o PSDB e o PT na corrida para o Palácio dos Bandeirantes. Outro nome que ganha força com essa nova legenda seria o deputado federal Gabriel Chalita (PSB), que torna-se nome forte para a sucessão de Kassab.

Bom para a esquerda?

Não há dúvida que o reforço na base aliada faria bem ao governo Dilma, no sentido de governabilidade. Mas quanto às forças mais progressistas da base aliada? Elas teriam uma perda de espaço para o conservadorismo? Para Altamiro Borges, do PCdoB, as forças mais progressistas precisam medir muito bem o que pode ocorrer, caso as mudanças sejam concretizadas. “Se por um lado dá mais governabilidade ao governo, fortalece um polo mais centrista na base aliada”, afirma, referindo-se ao provável novo partido. Borges lembra, no entanto, que o negócio não pode ainda ser dado como certo, já que o DEM ameaça judicialmente cassar o mandato de Kassab por infidelidade partidária, caso ele realize a debandada.

Já o analista político Wladimir Pomar aponta que as divisões da direita favorecem a esquerda, mas o cenário trará novos desafios. “A divisão da direita é politicamente boa para a esquerda. A novidade é que essa parte da direita tende a ingressar em partidos de esquerda, podendo se tornar correntes internas nesses partidos. Isso vai trazer problemas internos de novo tipo para eles, assim como problemas nas relações com o PT”, aponta.

Para o sociólogo Rudá Ricci, do Instituto Cultiva, o movimento arquitetado por Kassab insere-se em um contexto de despolitização do sistema partidário brasileiro e é melhor analisado sob a ótica do fisiologismo do que sob os aspectos ideológicos. “Parece reflexo de dois movimentos que se cruzam: o movimento do lulismo que diminuiu em muito o espaço da oposição e a consequente desestruturação do nosso sistema partidário. Os partidos brasileiros são, hoje, estruturas autóctones, sem lastro representativo de base. Sua representação se faz por cima, pela legitimidade que conseguem ao praticar as práticas cartoriais junto aos ministérios. Veja o caso dos prefeitos: sem convênios com ministérios e Caixa Econômica Federal, não governam. Prefeitos se tornaram meros gestores de programas federais”, avalia.

PSB

O PSB, partido de importância histórica para a esquerda brasileira, dá sinais de que tende a compor um “centrão”, fundindo-se a setores do DEM e assemelhando-se a o PMDB. O principal objetivo deste novo partido seria a disputa do governo Dilma, não no sentido ideológico como muitas vezes foi colocado no início do governo Lula, trata-se de uma luta estritamente fisiológica.

O acerto de cardeais do PSB, como o governador do Pernambuco Eduardo Campos, com lideranças do DEM irritou a deputada federal Luiz Erundina, que afirmou que não continuará na legenda se esta servir de abrigo para políticos conservadores e de direita.

“O PSB possui uma forte corrente de esquerda, mas ela se verá, da mesma forma que o governo, diante desse adesismo que tentará se apropriar do crescimento do PSB e redirecionar a linha do partido para o centro ou para a centro-direita.”, diz Wladimir Pomar.

Para Rudá Ricci, alguns quadros do PSB têm uma história a zelar e poderiam se complicar com a entrada de políticos de direita no partido. “Parte do PSB e DEM já é fisiológico ou, na melhor das hipóteses, não possui uma gota de programa ou ideologia. Mas parte do PSB, como o governador Eduardo Campos e a deputada Luiza Erundina, têm ideologia e história a preservar. Daí pode vir a tensão e a novidade”, explica.

Foto Renato Sousa/Câmara SP

 

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