Rio de Janeiro, 15 de Agosto de 2026

Questão política

Por Flávio Aguiar - A campanha contra o Ministério do Desenvolvimento Agrário tem por alvo o próprio ministro. Há razões fundiárias para tanto, já que Miguel Rossetto tem fama de ser ligado ao MST. Mas a questão é política também, no sentido restrito. (Leia Mais)

Terça, 09 de Setembro de 2003 às 16:09, por: CdB


A passagem da semana que passou para esta foi marcada pelos cerimoniais da independência (7 de setembro, domingo) e um relativo compasso de espera na agenda política nacional e internacional.

Na parte nacional o evento mais marcante foi o da troca do presidente do Incra, aliado à continuação das investidas na imprensa conservadora contra o órgão, contra seu novo diretor, dizendo que nada mudou, e contra o Ministério da Reforma Agrária. Nem poderia ser de outro modo, já que a troca do diretor não alterou os embates no campo e a necessidade de se agilizar a reforma, corroborada pela reunião do Grito dos Excluídos no mesmo domingo, 7 de setembro.
Mas o fato alerta para o óbvio: a campanha contra o Ministério tem por alvo o próprio ministro Miguel Rossetto. Há razões fundiárias para tanto, já que o ministro leva a fama de ser alinhado em demasia com o MST. Mas a questão não é apenas esta, ela é política também, no sentido restrito. Miguel Rossetto é um político jovem, combativo, alinhado à esquerda do PT, tem fama na verdade de competente, articulador, negociador e decidido. Em suma, é aquilo que nos bons tempos se chamava de um "quadro".

Miguel Rossetto tem todo um futuro pela frente. Se tiver sucesso na gestão e no encaminhamento da Reforma Agrária, será um virtual candidato a candidato, por exemplo, a o governo do Rio Grande do Sul, ou ao Senado, ou com certeza a uma vaga na Câmara Federal que poderá projetá-lo ainda mais. Leva ainda a vantagem de , ainda que com posições bem marcadas e conhecidas à esquerda, poder eventualmente re-unificar o PT do Rio Grande do Sul, desgastado pela polarização já estanque entre Tarso Genro e Olívio Dutra. Interessa portanto ao espectro conservador bombardear o ministro para neutralizar-lhe o possível futuro, até porque em nível estadual foi o Rio Grande do Sul que construiu a única perspectiva real até o momento de contraposição à agenda neoliberal na administração pública. Ainda que a administração popular tenha se enredado em suas próprias contendas internas, e em confusões políticas que poderiam ter sido evitadas, ou encaminhadas de outra forma, como as questões das auto-montadoras no estado, abrindo caminho para sua derrota, a marca ficou, e a direita, ao contrário da esquerda, nunca esquece.

No plano nacional as demais contendas prosseguiram suas marchas sem muitos solavancos: a questão da punição da esquerda do PT prossegue em marcha lenta, assim como a reforma da previdência entrou na fila de espera (ainda que com senha para voltar logo ao noticiário) e tributária continua seu Calvário de negociação, fustigada pela campanha empresarial e da imprensa conservadora de que temos uma das mais altas cargas de impostos do mundo, o que não é verdade. O que é verdade é que nossa carga de impostos segue a escala da nossa distribuição de renda, que é das piores do mundo: muitos que deveriam pagar pouco pagam muito em lugar de poucos que deveriam pagar muito e na verdade sonegam à tripa forra, de forma legal ou não.

A última dessa nossa realpolitik foi o anúncio na Terça-feira, dia 9, da absolvição da AS, dona da Eletropaulo, de sua dívida em relação BNDES, apresentada como a única solução possível. Como castigo por não cumprir seus compromissos a empresa norte-americana recebeu a penitência de montar uma nova empresa com o Banco credor na qual, é verdade, cederá uma parte do controle sobre o capital, mas manterá o poder decisório. Seria de rir, se não fosse de chorar, pois isso lembrou-me a piada final do filme "O homem dos papagaios", com Procópio Ferreira em que ele, depois de virar capitalista, expulsa um antigo companheiro de pobreza de sua mansão, que lá fora pedir uma ajuda diante de uma dívida de uns poucos milhares de cruzeiros. "Vá-se embora", diz-lhe Procópio, "e não me volte aqui antes de dever alguns milhões. Aí faremos negócio". Não garanto a precisão das palavras, mas o sentido sim.

No plano internacional a situação também é de espe
Tags:
Edições digital e impressa