Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Questão de navio e naufrágio

Por Maria Lúcia Dahl -

Segunda, 24 de Novembro de 2014 às 09:09, por: CdB
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Maria Lúcia Dahl conta sua primeira viagem de navio a Lisboa, os enjôos e o naufrágio
O navio chamava-se Andes, e era inglês. Viajávamos pra Europa nele, já que papai não entrava em avião desde que uma cartomante afirmou que ele morreria num desastre aéreo. Minha irmã e eu éramos crianças e adorávamos o navio, apesar da comida insossa. Corríamos pelo deck, brincávamos com outras crianças, falávamos inglês e nos sentíamos importantes enquanto nossos pais enjoavam trancados no camarim. Vovó, que tinha ido pra cuidar da gente, tomava chá com limão e um bolo sem graça, que eu e minha irmã chamávamos de bolo besta, na mesa do comandante. À noite assistíamos a shows. Dois dançarinos americanos, Marlene e Michael, deslizavam pelo salão ao som de tangos e boleros, em voga na época. Depois tiravam cavalheiros e damas da platéia pra dançar com eles. Marlene usava um vestido justo vermelho e Michael, um smoking. Mamãe tinha ciúmes de Marlene quando enlaçava papai ao som de La Cumparsita. Mamãe fazia cena. Papai tomava uísque, antes de correr enjoado pro camarote e nós jogávamos no caça-níqueis esperando a chuva de moedas que víamos caír de dentro dele fazendo a festa de alguns felizes jogadores. Um dia a amiga que vovó fez no salão de chá e que também era brasileira nos deixou umas moedas pra jogar por ela e foi dormir. Não conseguimos esperar até o dia seguinte pra entregar-lhe o bolo de níqueis que caiu quase imediatamente em nossas mãos. Batemos em sua porta, excitadas, e sem esperar entramos correndo depois de perceber a porta aberta. Qual não foi o nosso espanto ao vê-la deitada, lendo, a boca murcha de velhinha ao lado da dentadura que ria sozinha, sem dono, mergulhada na água de um copo. Ficamos ambas estateladas, com o dinheiro na mão. No dia seguinte era a Passagem do Equador e a amiga de vovó recuperou sua imagem jovial e alegre fantasiando-se de Sarah Bernard com um vestido preto de cetim e longas luvas prateadas. Enamorei-me perdidamente de um menino inglês chamado Thimoty que, aproveitando-se de minha paixão platônica, comia todos os meus biscoitos. Jogávamos pingue-pongue em duplas, meninos contra meninas, que, pobres de nós, perdíamos sempre. Também jogávamos cricket no convés, o que me entediava mortalmente, deixando-me distraída, olhando, enlevada, o meu primeiro amor. Um dia Thimoty me pediu um beijo na escada do restaurante, o que me fez sair correndo pelo navio, o coração aos altos, até a segunda classe cheia de italianos que gesticulavam e gritavam oferecendome pão com salame. Passei a fugir de Thimoty, que me chamou de pirralha, depois de eu ter pago aquele mico. Contestei heroicamente afirmando que eu era uma adulta, ao que ele, ainda ofendido, respondeu: “Você não é nem nunca vai foi!” Depois o vi namorando minha amiga, Milene, o que me fez chorar de raiva e vergonha. Enquanto isso minha irmã, adolescente, dançava com os oficiais debochando de um português que lhe dizia ao pé do ouvido: “Apetece-me beijá-la...” Também aprendi a jogar king com as senhoras, mas gostava mesmo era de fugir e brincar, escondido, de boneca. Papai e mamãe se entediavam e contavam os dias intermináveis que faltavam pra chegar a Lisboa enquanto vovó lia o Eça pra entrar no clima. O navio começou a jogar. Mamãe desceu, enjoada, pro camarote. Eu e minha irmã, no caça-níqueis, tentávamos a sorte. Vovó continuava lendo o Eça quando o navio jogou mais forte atirando-a no chão. O livro escorregou pro outro lado e ficou dançando pra lá e pra cá. Minha irmã e eu nos seguramos na máquina do caça-níqueis. O navio começou a apitar. Era tarde da noite. Um leve pânico educado tomou conta dos tripulantes ingleses. O apito continuou mais forte, e da porta de vidro que dava pro convés podíamos ver as ondas enormes lá fora. O navio jogava cada vez mais forte. As pessoas se aglomeravam no salão de visitas. Papai, apavorado, resolveu chamar mamãe, cada vez mais enjoada no camarote. Descemos com ele, agarrando-nos ao corrimão da escada enquanto vovó rezava no salão. Encontramos mamãe no banheiro, passando mal. Nem desconfiava do que se passava ao seu redor. Papai chamou-a delicadamente: “Querida, você tem que subir conosco.” Entre um soluço e outro ela agarrava-se à pia e dizia: “De jeito nenhum”. Foi quando papai abriu o jogo e confessou: “Meu bem, o navio está afundando!” Então ela respondeu, limpando o suor da testa: “Vai lá em cima ver como é que as senhoras estão vestidas pro naufrágio e volta aqui pra me contar”. Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais - Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa - 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come - Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais - Dancing Days - Anos Dourados - Gabriela e recentemente em - Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas - O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme - Vendo ou Alugo - vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil. Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.
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