Rio de Janeiro, 16 de Janeiro de 2026

Quem vai pagar pelo caos climático

Por Maurício Thuswohl - O segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU trouxe uma importante novidade ao tocar diretamente em uma questão crucial: quem é que vai pagar a conta do caos climático? (Leia Mais)

Quinta, 12 de Abril de 2007 às 19:00, por: CdB

O segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU trouxe uma importante novidade ao tocar diretamente em uma questão crucial: quem é que vai pagar a conta do caos climático?

O segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), divulgado há poucos dias em Bruxelas, não é muito diferente do primeiro, que foi apresentado em fevereiro. As terríveis previsões sobre secas, inundações, tempestades, doenças, extinção de espécies, aumento do nível do mar e desgraças afins estão todas lá. Esse novo relatório, no entanto, trouxe uma importante novidade ao tocar diretamente em uma questão crucial: quem é que vai pagar a conta do caos climático?

A resposta, dada pelo próprio IPCC, é tristemente óbvia. Quem mais vai sofrer com o aquecimento global são os pobres, sejam eles países ou pessoas. Enquanto a América do Norte, a Europa, o Japão e a Austrália podem se valer de suas riquezas e infra-estrutura para, desde já, mitigar os efeitos das mudanças climáticas em curso, o resto do mundo não tem para onde correr e parece aguardar o acirramento do caos climático como um condenado à espera do verdugo.

O pior cenário, outra lamentável obviedade, é aguardado para a África. Segundo o IPCC, daqui a somente 15 anos o número de seres humanos vivendo em estado de penúria crônica de água no continente pode atingir a estarrecedora marca de 250 milhões. Nossos irmãos africanos, maiores vítimas do capitalismo global e já parcialmente dizimados pela fome, verão a falta d'água reduzir ainda mais suas áreas cultiváveis e fazer entrar em colapso sua agricultura. As populações costeiras mais pobres, que em sua maioria vivem da pesca, provavelmente terão que se deslocar com o aumento do nível do mar. Imaginem como será esse cenário climático associado ao atual quadro de miséria, conflitos armados e avanço descontrolado da epidemia da Aids que caracteriza os mais pobres países africanos...

Pobre África. E pobre Ásia. Segundo o IPCC, um quinto das geleiras do Himalaia estará derretido até 2030, fato que, após um primeiro momento de "grandes inundações", vai gerar escassez na oferta de água em vários países do continente e deixar em estado de penúria crônica cerca de um bilhão de pessoas. Os países do sudeste asiático, sobretudo os insulares, também deverão padecer com o aumento do nível do mar e da ocorrência de chuvas torrenciais e tempestades. Alguns estão ameaçados até mesmo de desaparecer do mapa.

O relatório pouco fala da América Latina, apesar da grande presença de brasileiros entre os dois mil cientistas que compõem o IPCC. Em todo caso, o cardápio de desgraças climáticas para o continente é conhecido. Ele inclui a perda de boa parte das espécies existentes nas florestas tropicais, a desertificação de áreas hoje consideradas semi-áridas e a inundação de partes do território desde a Argentina até El Salvador e México, entre outras coisas.

Existem outros problemas que afetarão de forma mais grave os mais pobres (países e pessoas) desses continentes, como a expansão de doenças (malária à frente, mas também cólera, dengue e outras doenças associadas à falta de saneamento básico) e o aumento da pobreza e da favelização causadas pelos deslocamentos populacionais e pela concentração excessiva de gente nas grandes cidades.

A questão é ideológica
 
A constatação, feita pelo IPCC, de que os pobres é que vão pagar a conta do caos climático pode não ser exatamente surpreendente, mas serve para chamar a atenção para a dimensão ideológica do problema, que muitas vezes é ignorada ou até mesmo deliberadamente deixada de lado pelos cada vez mais numerosos lobos em pele de ambientalista.

Quando se chega a esse ponto, não basta dizer que o capitalismo é o culpado histórico pelas mazelas ambientais. Não basta denunciar que os países que são os principais culpados pelo aquecimento global serão (in)justament

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