Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Quem pode gritar "Eu sou Charlie"

Por Mário Augusto Jakobskind - A barbárie neste terceiro milênio está dando o ar de sua graça, sendo o mais recente exemplo o ocorrido em Paris, na reunião de pauta do Charlie Hebdo, que resultou no assassinato de 12 pessoas, entre os quais os quatro cartunistas da publicação, referências mundiais do humor. Nas redes sociais comenta-se de tudo, alguns comentários totalmente fora de propósito e que revelam preconceito dos mais variados, ou, como afirmou o Rui Martins, muita desinformação.

Sexta, 09 de Janeiro de 2015 às 13:24, por: CdB
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O atentado contra caricaturistas do Charlie revelou muitos comentários absurdos até na boca de gente de esquerda
A barbárie neste terceiro milênio está dando o ar de sua graça, sendo o mais recente exemplo o ocorrido em Paris, na reunião de pauta do Charlie Hebdo, que resultou no assassinato de 12 pessoas, entre os quais os quatro cartunistas da publicação, referências mundiais do humor. Nas redes sociais comenta-se de tudo, alguns comentários totalmente fora de propósito e que revelam preconceito dos mais variados, ou, como afirmou o Rui Martins, muita desinformação. A turma do Charlie Hebdo, a sua maneira, sempre defendeu os oprimidos e era odiado por extremistas do gênero Marine Le Pen, a política francesa que está se aproveitando da comoção popular provocada pelo atentado para desencavar o ódio que sempre propagou, às vezes de forma escondida, às vezes abertamente.Neste momento quer a volta da pena de morte. Por aqui houve comentários do gênero senso comum criticando o tipo de charges que a publicação fazia. Alguns chegaram absurdamente a dar a entender que as próprias charges poderiam ter provocado à tragédia. Absurdo dos absurdos. É o mesmo raciocínio dos Bolsonaros da vida que ao “analisarem” os estupros culpam as próprias mulheres, chegando a falar até em “trajes inapropriados”. É preciso repelir esse tipo de argumento, que no final das contas acaba desviando o foco da culpa pela violência contra as mulheres. E no caso em questão, da responsabilidade pela barbárie. No caso da turma do Charlie Hebdo, demonstrando total ignorância chegaram a culpá-los por islamofobia. Também absurdo dos absurdos. Esta gente não tem humor, está sempre de mal com a vida. Há até os que se consideram de esquerda usando tais argumentos, o que é um contrassenso. Mas do lado da direita há também os que não ficam atrás. Era só o que faltava, por exemplo, alguns colunistas e articulistas da direta brasileira quererem posar de ”Je Suis Charlie”. É uma afronta que colunistas da revista Veja queiram se equiparar aos comunicadores assassinados, Na verdade, tipos como Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainard quando assim se apresentam na prática enxovalham a memória de jornalistas e cartunistas que através do humor e da ironia sempre defenderam os oprimidos. Como esta gente da Veja sempre combateu os oprimidos de um modo geral, estranha muito nesta altura do campeonato eles quererem se apresentar como “perseguidos” entoando o “Je suis Charles”. Se o semanário O Pasquim, o nosso Charlie Hebdo, ainda estivesse circulando certamente teria feito inúmeras gozações a esta tropa da revista, da mesma forma que fazia às figuras hediondas daquele período ditatorial quando se encontrava nas bancas. O mundo está de luto e a única resposta que pode ser dada, além, claro, da punição exemplar dos responsáveis pelo ato de barbárie, é incentivar os cartunistas de todo o mundo a continuar na linha da turma do Charlie Hebdo. E fazer humor e não a guerra,denunciando injustiças, sejam onde ocorrerem, inclusive do traçado artificial de muitos países e que provocaram o surgimento do Estado Islâmico, incentivador do terrorismo. E também não esquecer que os fundamentalistas religiosos no período de descolonização foram incentivados pelos próprios colonizadores que queriam se contrapor a forças nacionalistas de esquerda. Quem não gostar das charges do tipo apresentada pela turma do Charlie Hebdo que não compre a publicação. E também as outras que divulgarem esse gênero de humor. Como comunicadores temos de fazer o possível para que não prevaleça o esquema medieval dos terroristas que assassinaram o humor. Ou seja, temos de incentivar a comunicação desse gênero. Por estas e muitas outras, é necessário gritar em alto e bom som que “Je suis Charlie” e alertar para que os cultivadores de ódio sejam apontados e não se aproveitem da tragédia para vender o peixe podre que tentam passar adiante. Como, por exemplo, a extrema direita europeia ou os “analistas” da Veja. Em suma: fora os caretas de todos os matizes. Georges Wolinski, Stephane Charbonnier, Jean Cabut e Bernard Verlhac não podem ser esquecidos e a melhor homenagem é sempre procurar seguir seus passos. Ah, sim, realmente é meio estranho o fato das autoridades informarem que um dos terroristas esqueceu a carteira de identidade no carro utilizado. Isso dá margem a muita especulação. Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , será lançado dia 17, no Rio de Janeiro. Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.
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