Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 2026

Quem não quer democracia?

Por Gilson Caroni Filho: Um olhar ligeiro sobre a conjuntura política mostra a impostura de afirmações que não encontram o mais leve respaldo empírico na história recente. Mas uma perguntinha inconveniente surge no cipoal da insensatez. Quem detém o monopólio da produção simbólica do desprestígio? (Leia Mais)

Domingo, 21 de Outubro de 2007 às 11:50, por: CdB

Sábado, 15 de setembro de 2007. Uma data para ficar registrada. O embrião de um grande salto. Uma manifestação que ocupou a frente principal do jornal Folha de S.Paulo, no centro da capital paulista, marcou a criação do Movimento dos Sem Mídia (MSM). Faixas usadas na manifestação continham dizeres como: "Quero que a mídia fale, mas não me cale"; e "Imprensa plural, país igual". Algo impensável para o consenso estabelecido no campo jornalístico alguns anos antes. Um breve interregno em que editores se confraternizavam pelo "bom jornalismo" que julgavam praticar. E não lhes faltavam aplausos de conhecidos "observadores da imprensa". Como vimos, esse clima não demoraria muito, mas enquanto perdurou foi intenso.

Que toda unanimidade é burra já sabíamos desde Nélson Rodrigues. Que sua arquitetura requer a rápida desconstrução do passado e mergulho açodado em um jogo tolo de aparências continuamos a aprender no curso de uma campanha eleitoral que, para a grande imprensa, nunca terminará até que os tucanos voltem ao poder.

Nos dois primeiros anos do século, a festejada “isenção” da TV Globo no processo político, com direito a elogios à "admirável redefinição editorial da emissora", mostrou-se um sonho de outono que mal adentrou a primavera. É o caso de, mais uma vez, lembrarmos aos analistas de mídia que o pressuposto de seu exercício é o distanciamento do objeto analisado. Comemorações precipitadas obrigam a reavaliações amargas. Ou, em casos agudos de cinismo, a uma aposta no esquecimento do que foi dito e/ou escrito.

Bastaram a eleição de Lula, em 2002, e as derrotas subseqüentes das velhas oligarquias na Venezuela, Bolívia, Equador para a reluzente "carruagem democrática” regredir ao seu estágio de abóbora das forças mais reacionárias do continente. E o que era deslocamento sutil dentro dos marcos do bloco histórico se fez ataque sem tréguas contra o governo eleito, sem qualquer refinamento de edição. O noticiário editorializado, os conhecidos direcionamentos de títulos, e as coberturas viciadas mostraram à cidadania a urgência de resgatar a política do espetáculo editado. E era isso que pulsava na calçada da Alameda Barão de Limeira.

Ao contrário dos apologistas da imprensa nativa, que adotavam a própria crença como metro, alertamos que a redefinição estratégica na cobertura, em um curto espaço de tempo, não correspondia a uma efetiva postura democrática. Confundir ajuste tático com redefinição ética era de um primarismo tão gritante que chegava a ser suspeito. De pouco valeu nossa modesta contribuição. Nada havia a fazer quando o jornalismo, em discurso auto-referido, celebrava a si próprio como legado vivo de Plutarco.

De sustentáculo da ditadura, a TV Globo se transformou, como que por encanto, em fiadora da lisura do processo democrático. Bombas que sumiram de uma edição para a outra (Riocentro, 1981), censura ao movimento por eleições diretas para a Presidência da República (1985), edição de debates eleitorais para favorecer o candidato da direita (1989), expurgo de notícias que pudessem comprometer a candidatura à reeleição de FHC (1998) eram fatos que deveriam ser relevados. O momento, para jornalistas experientes, só comportava elogios. Todos exultavam a própria fantasia transformada em axioma: a mídia era, até 2006, a vencedora de qualquer pleito. E a democracia definida como festa cíclica, com dia e hora para acabar. Uma ironia histórica que insistia em eternizar o baile da ilha fiscal. As eternas bodas entre a classe dominante e sua imprensa confiável.

O editor e apresentador do Jornal Nacional, jornalista William Bonner, mais que mediador de debates era incensado como amestrador de fatos e atos. Aquele que, encarnando a face rousseauniana do campo midiático, não deixaria a “vontade geral” à mercê das manobras tergiversadoras dos políticos. O noticiário editorializado e os conhecidos direcionamentos de títulos e coberturas viciadas tiveram efeito paradoxa

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