Comissão da Verdade pressupõe a existência de documentos. Qual é o sentido deste segredo eterno?
29/06/2011
Vito Giannotti
Diziam nossas avós: quem não deve, não teme. Se não tenho crime nenhum no cartório, vou querer incendiar o cartório, por que? Vamos perguntar a nossas avós. Nesse mês de junho estamos vendo muita gente temer a abertura dos arquivos da história do Brasil. Os porta-vozes deste bloco são dois sujeitos altissimamente conhecidos por seus gloriosos serviços ao país: nada menos que José Sarney e Fernando Collor. Mas atrás do biombo deles há muito mais gente.
Alguém imagina que o empresário torturador e matador de comunistas, durante a ditadura militar, o cidadão Boilesen, presidente da Ultragás, foi o único entre seus pares? Quantos outros empresários agiram igual a ele? O estudioso e escritor René Dreifuss, em seu o livro 1964 – A conquista do Estado, nos dá um monte de nomes de sujeitos iguais a este senhor. Um deste é o presidente da Fiesp, Teobaldo de Nigris, que em 1969 fez pessoalmente uma caixinha para recolher dinheiro para montar o centro de tortura e assassinatos, a Operação Bandeirantes (Oban).
Quantos senhores donos de canais de televisão ou estações de rádio, ou de comércios e bancos faziam parte desta corriola? Só os militares deram o golpe cívico-militar, em 1964? E os civis? Cadê a documentação? É preciso o segredo eterno mesmo!
Pelo Projeto de Lei 41 defendido pelos dois nobres expresidentes, nem Cristo vai saber nunca! Tem que garantir o silêncio eterno. Documentos ultrassecretos até o fim do mundo. E assim, militares e civis, célebres torturados e assassinos da ditadura de 1964 e da Operação Condor estarão livres e soltos.
Comissão da Verdade pressupõe a existência de documentos. Qual é o sentido deste segredo eterno? As alegações são a tal da segurança nacional, fronteiras e coisa e tal. Belas desculpas esfarrapadas. Será que o povo brasileiro não quer ver os documentos sobre o helicóptero que caiu, em 1992, com dois pesos-pesados da política, nacionalistas que não se afinavam com o neoliberalismo imperante: Ulisses Guimarães e Severo Gomes? E a morte de Tancredo? Muito mineiro conta e acredita em cada história! E cadê a documentação? Mas nossos Sarneys e Collors estão em campanha pelo silêncio até o fim dos tempos. Qual outro país tem este mecanismo de acabar com sua história? Bom, nós temos o antecedente de Rui Barbosa com os documentos sobre a escravidão, segundo nos contam para evitar a busca de indenização por ex-senhores de escravos, com base nos registros.
Se o governo não jogar todo seu peso para esmagar esta campanha de seus queridos aliados, estaremos voltando atrás um século no caminho da cidadania.
Vito Giannotti é escritor e Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação
Publicado originalmente na edição 434 do Brasil de Fato.