Quem matou “fulana”? – foge-me agora o nome da tal “fulana”. “Fulana”, no caso, era apenas uma personagem de uma novela e, no capítulo final, depois de um bem fornido e alentado suspense, até que enfim, e, no fim, finalmente, revelar-se-ia o nome do seu assassino [o uso da mesóclise, nesse caso, estaria correto?].
Na sexta-feira da semana passada, 28/09, uma data por assim dizer “histórica”, as pessoas só falavam disso – no trabalho, no restaurante na hora do almoço, no cafezinho, no Congresso, em todos os lugares. Também na internet! Nas chamadas dos sites – e até em alguns blogs. Em colunas de opinião e artigos de fundo! A pergunta era a mesma, ubíqua, onisciente: quem matou “fulana”? (Soube, por intermédio dos noticiosos, que vernissages, shows e espetáculos de teatro foram cancelados ou retardados, pois o país parara para conhecer o desfecho da trama). Juro que, numa espécie de ato-reflexo, quando li ou ouvi, pela enésima vez, essa pergunta [“quem matou “fulana”?], veio-me à cabeça uma outra indagação: quem matou a cidadania?
Sim, quem matou a cidadania? Que espécie de teleguiados somos nós!?Pois, em meio a tantas questões urgentes: a corrupção endêmica, nossa iníqua concentração de renda, a violência urbana, o déficit habitacional, os hospitais sucateados, o sistema educacional em “frangalhos”, as Febem e os cárceres superlotados, os fantasmas do desemprego, da terceirização e da privatização a nos assombrar; em meio a tanta coisa para se (pré)ocupar, muita gente só falava, só pensava em quem matou a tal “fulana”.
Ah! As novelas, algumas delas, já tratam desses temas, servindo, inclusive, como instrumento de cidadania – diria você, leitor mais ponderado e crítico, ou apenas mais um noveleiro dissimulado em busca de uma boa e esfarrapada desculpa. Sendo assim, então só nos restaria dizer em uníssono: Ó novela, rogai por nós! Ó novela, vivei por nós!
No país dos “zumbis” hipnotizados pelas novelas e programas de auditório, você pode até estar me achando um chato de galochas por trazer essa questão à pauta. Não lhe tiro a razão pelo incômodo e desconforto. Mas alguém tinha que levantar essa bola – que seja eu o “chato” de plantão, então.
Pena que a nossa memória seja tão débil, senão saberíamos todos (ou lembraríamos todos) que essa história, esse artifício de “quem matou fulano”, é bastante antiga e que essa fórmula já deveria estar esgotada completamente, mas...
Todo ano, a cada novela das oito, é a mesma questão: quem matou “fulana(o)”?; quem matou “beltrano(a)? Você deve se lembrar. Quem matou Lineu? Quem matou Odete Roitman? Quem matou Thaís?[ lembrei: esse era o nome da “fulana”]. Beira o ridículo, mas caímos sempre na mesma cilada do suspense barato, folhetinesco. Experimentamos e submergimos na mediocridade, como num moto perpétuo. Por isso, faço aqui a inconveniente pergunta: quem matou a cidadania?
Acho o fim da picada – seguindo essa picada, creio restar só mesmo o abismo – que pessoas, notadamente os jovens, percam seu tempo precioso de descanso e lazer assistindo novelas (conheço muita gente que vive em desespero ou desalento, pois os filhos não desgrudam da televisão). Preocupam-me, sobremaneira, os jovens, pois os jovens, mais que os anciões ou os mais maduros, necessitam viver, experimentar a vida. Necessitam escapar dessa cilada da alienação paralisante. Novela é para aquele indivíduo que desistiu de viver sua própria vida e se apraz em viver as vidas falsas, rocambolescas e fantasiosas dos personagens das novelas.
Dizem que novela é uma boa terapia para quem está deprimido, mas discordo. Para mim, assistir novela é em si deprimente. O indivíduo vai afundando naquele sofá, o mofo vai se apoderando de seu corpo e de sua mente. O sujeito deixa de ser um cidadão e se transforma numa espécie de musgo ou vegetal.
Pensem comigo se não há muito mais coisas interessantes para se fazer!? Nem ousaria, para não cair de vez na antipatia do l
Quem matou a cidadania?
Por Lula Miranda: Fiz uma pesquisa avançada na internet com a expressão “Quem matou Thaís?”, como resultado obtive mais de 18.000 páginas. Fiz, em seguida, a mesma pesquisa com a expressão “Quem matou a cidadania?”. Não foi apontado registro algum. (Leia Mais)
Sábado, 06 de Outubro de 2007 às 09:55, por: CdB