Dizia minha sábia avó que o importante não é vencer, é sair ganhando. Exemplo: aquele nadador africano que demorou vários minutos para cumprir os 100 metros rasos na piscina, na última Olimpíada, chegou em último lugar, mas foi aplaudido de pé. Ou seja, saiu ganhando. Ninguém se lembra mais de quem ganhou a maratona na Olimpíada: mas nosso corredor brasileiro, que foi atropelado pelo maluco irlandês, também foi aplaudido de pé no estádio, ganhou a medalha de bronze e mais uma de "mérito esportivo": saiu ganhando, tornou-se inesquecível.
Se a escritora Gertrude Stein fosse comentarista política, ela diria que "um Lula é um Lula é um Lula". Porque ele não se limitou a ganhar as eleições: ele de fato saiu ganhando. A eleição, no primeiro turno, foi das mais chochas que já houve na história recente, embora o resultado fosse cotado entre os mais importantes da história do país e do continente latino-americano.
A passagem para o segundo turno despertou a "fera política" que Lula, no campo tático, sempre soube ser. Lula espremeu Alckmin, emparedou-o, acabou com seus argumentos, deixou-o rodando em torno de si mesmo em busca de um eixo. Nos quatro debates que as televisões transmitiram, vimos um Lula enfrentando quatro Alckmins: o bravo, o manso, o semi-bravo ou semi-manso e no último o já derrotado e nas cordas.
Não se tratou apenas de um confronto psicológico. Lula destruiu o "ethos" da candidatura Alckmin. Ele se viu obrigado a trair seu ideário, e foi chamado a atenção por seus próprios aliados. Não sei se foi o próprio Lula, ou alguém de sua campanha, quem teve a idéia de lançar sobre Alckmin a pecha de privatista. Mas isso foi definitivo. No auê laudatório criado pela mídia conservadora em torno das privatizações, louvando-as como o que de melhor fora feito na economia brasileira durante o governo FHC, escapou o dado, que só agora veio à tona, de que 70% da população as reprovavam.
Alckmin teve de jurar que não privatizaria aquilo que FHC tentou privatizar: a mítica Petrobrás. Pôs-se a fazer demonstrações anti-privatistas, a tal ponto que seus aliados na política e na mídia
passaram a cobrá-lo, pedindo que defendesse o conceito de privatização. Alckmin sucumbiu às suas próprias contradições e a uma certa tacanhice de seus argumentos. Foi fatal para ele ter anunciado que venderia o avião presidencial: aquilo que deveria ser uma suposta "prova de sobriedade" transformou-se numa espécie de bravata que comprovava a fúria privatista.
Se Lula for de fato um estrategista (mas sobre isto pairam dúvidas), ele perceberá que não só derrotou as patranhas de seus adversários e da imprensa conservadora, que durante dois anos tentaram derruba-lo, numa das campanhas mais patéticas e autoritárias que já se viu na história brasileira, mas conseguiu criar um novo patamar político para o século XXI.
Esta eleição se torna a mais importante do Brasil desde a de 1950. Cinqüenta e seis anos atrás o novo proletariado emergente elegeu Vargas e seu programa nacionalista, derrotando os liberais que tinham apeado o ditador do Palácio do Catete. Embora Vargas fosse derrubado e se suicidasse em 1954, seu curto governo, capitalizando o que tinha semeado antes, abriu o caminho para a participação das forças populares no cenário político, e criou as bases da matriz energética sob controle do Estado que agora empurra - junto com as políticas sociais - Lula para diante.
Lula conseguiu ocupar todo o espaço político, neutralizando a aversão que os rentistas tinham e ainda têm por ele, mantendo consigo largos setores dos trabalhadores organizados, atraindo as bases empobrecidas no Nordeste que tradicionalmente eram massa de manobra do PFL, e convencendo parte considerável do eleitorado de classe média de que isso pode ser melhor para todo mundo. Esse terremoto foi tão grande que, apesar de seus próprios esforços em contrário, essa nova situação destronou a dinastia dos Sarney no Maranhão, além de abalar de uma v