Rio de Janeiro, 12 de Agosto de 2026

Quem ajuda quem?

Por Emir Sader - A pergunta foi feita em discurso por Fidel Castro ao comparar a verba doada pela União Européia aos problemas enfrentados pelo país. Fidel lembrou o trabalho voluntário prestado por médicos cubanos em 93 países. (Leia Mais)

Segunda, 04 de Agosto de 2003 às 17:40, por: CdB

O presidente Fidel Castro, em Santiago de Cuba, se perguntou utilizando dados do intercâmbio entre a União Européia e Cuba no discurso por ocasião dos 50 anos do assalto ao quartel Moncada, no dia 26 de julho: "Quem ajuda a quem?"

Os dados mencionados pelo dirigente cubano apontam por um lado para minimizar os montantes que a EU afirma entregar como "ajuda humanitária", que teria diminuído de 3,6 milhões em 2000 a 600 milhões em 2002.

Perguntou-se o dirigente cubano: "O que significa essa cifra realmente para um país que entre novembro de 2001 e outubro de 2002 sofreu o impacto de três furacões que afetaram o país em que US$ 2,500 milhões de dólares, unido ao efeito devastador da queda de ingresso no turismo por causa do ato terrorista de 11 de setembro de 2001, a dos preços do açúcar e do níquel pela crise econômica internacional e o aumento considerável dos preços do petróleo por diversos fatores? O que significam comparados com os 72 bilhões que custou o bloqueio econômico imposto pelos governos dos EUA durante mais de quatro décadas...?"

Além disso, com os subsídios ao açúcar, os países da EU afetaram em vários bilhões de dólares os ingressos de Cuba ao longo do tempo em que dura o bloqueio dos EUA. Os pagamentos de Cuba à EU chegaram nos últimos cinco anos a US$ 7,5 bilhões, uma média de U$ 1,5 bilhão, enquanto esses países só adquiriram produtos de Cuba por um valor médio, nesses cinco anos, de US$ 571 milhões anuais.

Além dos atrasos burocráticos da tal ajuda e condições complicadas, que praticamente paralisaram o fluxo da ajuda para um grupo de projetos por três anos, embora todos os recursos aprovados, ainda que não liberados, são divulgados como se fossem "liberados para Cuba".
Os custos indiretos dessa ajuda incluem também passagens nas suas próprias linhas aéreas, hospedagem, salários, diárias e gastos de luxo, que são incluídos como se fossem ajuda. Depois de declarar que Cuba prescinde dessa ajuda, porque ela pretende impor condições à soberania de Cuba e que só aceita ajudas de governos regionais, de ONGs e de movimentos de solidariedade, que não impõem nenhum tipo de condicionamento.

Fidel Castro passou a comparar a relação que Cuba tem com os países da África, com a do colonialismo e da escravidão que essas mesmas potências européias tiveram ao longo de séculos e ainda têm. Fidel Castro afirmou que durante 40 anos se formaram em Cuba mais de 40 mil jovens de mais de 100 países do Terceiro Mundo gratuitamente, como professores universitários e técnicos qualificados, 30 mil deles procedentes da África, sem que nenhum tivesse ficado em Cuba, como acontece com os países europeus. Nesse mesmo período mais de 52 mil médicos e trabalhadores da saúde cubanos prestaram serviços voluntários e gratuitos em 93 países.

Tudo isto, segundo Fidel Castro, se dá pelo capital humano de que dispõe Cuba, o mesmo que permitiu que na primeira parte do seu discurso, quando comparou a situação de Cuba em 1953, no momento do assalto ao quartel Moncada e 50 anos depois, ele destacasse que 85% da população é proprietária de sua residência, 75% das quais construídas depois da vitória da revolução, em 1959. Destacou que Cuba ocupa o primeiro lugar mundial em número de professores per capita, mesmo lugar pela relação entre professores e alunos. O número de médicos, que havia baixado de 6 a 3 mil logo em seguida do triunfo da revolução, hoje ascende a 67 mil. Finalmente, Fidel Castro mencionou que a mortalidade infantil cubana é a menor entre todos os países do Terceiro Mundo e que nos próximos anos o país chegará à expectativa de 80 anos de vida para todos.

Com esses argumentos Fidel Castro pretendeu opor as conquistas de um país periférico, pobre, porém justo, com as das sociedades capitalistas, ricas uma parte delas, mas mesmo estas, injustas.


Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (U

Tags:
Edições digital e impressa