Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 2026

Queda de Mubarak causa vendaval político no Magrebe

A derrubada do ditador Hosni Mubarak, na véspera, tem causado um vendaval no Oriente Médio. As repercussões vão desde a possível realização de eleições gerais na Palestina até as manifestações pelo fim do regime instalado há décadas na Argélia e controlado, atualmente, por Abdelaziz Bouteflika.

Sábado, 12 de Fevereiro de 2011 às 15:16, por: CdB

A derrubada do ditador Hosni Mubarak, na véspera, tem causado um vendaval no Oriente Médio. As repercussões vão desde a possível realização de eleições gerais na Palestina até as manifestações pelo fim do regime instalado há décadas na Argélia e controlado, atualmente, por Abdelaziz Bouteflika. Manifestações por todo o país resultaram, segundo correspondentes das agências de notícias em Argel, na prisão de cerca de 500 pessoas e na repressão a manifestações realizadas na capital e nas principais cidades daquele país, no Norte da África. Na palestina, nesta tarde, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) anunciou que o país deverá realizar eleições gerais em setembro deste ano, aparentemente em resposta aos ventos de democracia que sopraram na Tunísia, o Egito e agora chega à Argélia. Ainda neste sábado, Saeb Erekat, negociador-chefe do processo de paz entre a Palestina e Israel, falou aos jornalistas após apresentar seu pedido de demissão do cargo, prontamente aceita pelo líder Mahmoud Abbas. Um subcomitê formado logo após a decisão de Erekat ficou encarregado de encontrar o sucessor capaz de resatruturar as negociações com o país vizinho. A Palestina não realiza eleições desde 2006, quando o grupo radical Hamas conquistou a maioria do Parlamento, após um ano e meio de guerra civil, encerrada em 2007. Desde então, o Hamas tem governado Gaza e o Fatah, partido da OLP, controla West Bank. O Hamas, no entanto, parece discordar da ideia. Os termos do anúncio de eleições gerais, divulgados neste sábado, dizem: "Apelamos a todas as partes a deixar de lado suas reservas e discordâncias. Vamos trabalhar juntos para realizar eleições e respeitar a vontade do povo palestino. Como as diferenças e divergências, quer em questões políticas ou de segurança, acreditamos que esses problemas poderiam ser resolvidos com a renovação da Assembleia Legislativa". Argélia em chamas Logo nas primeiras horas após a queda de Mubarak, no Egito, a polícia da Argélia entrou em confronto com manifestantes que protestavam contra o governo, neste sábado, na praça central da capital, Argel, desafiando o estado de emergência em vigor no país há quase 20 anos. Centenas de pessoas foram detidas e levadas do local. Segundo a correspondente da emissora britânica de TV BBC em Argel Chloe Arnold, apenas algumas dezenas de jovens ativistas sobraram na praça Primeiro de Maio, no centro da capital. Helicópteros sobrevoam a área central da cidade, enquanto veículos blindados e barreiras tentam impedir a passagem de ônibus com mais manifestantes. Cerca de 20 mil policiais estão trabalhando na operação. Mais cedo, milhares de pessoas gritavam palavras de ordem contra o presidente do país, Abdelaziz Bouteflika, exigindo melhores condições de vida e maior liberdade. Partidários de Bouteflika também se organizaram e se reuniram nas ruas de Argel. Os recentes protestos no Cairo e na Tunísia são tidos como os eventos que inspiraram a mobilização dos argelinos contra o governo. Na noite dessa sexta-feira, a polícia interveio quando uma multidão tomou as ruas para comemorar a saída do presidente egípcio, Hosni Mubarak. Argel já havia registrado confrontos entre manifestantes e policiais em janeiro deste ano, em meio a protestos contra o desemprego, os preços dos alimentos e as más condições de moradia. Os protestos populares são proibidos na Argélia devido a um estado de emergência que dura desde a guerra civil de 1992. No início de fevereiro, o presidente afirmou que esta situação seria suspensa "em um futuro muito próximo". Bouteflika fez a declaração em uma reunião com ministros, segundo a mídia estatal. Ele afirmou que os protestos seriam tolerados em qualquer parte do país, menos na capital. Repressão Ainda segundo a correspondente Arnold, a situação na Argélia é semelhante à de outros países árabes, como o Egito. Bouteflika, 73 anos, está na Presidência desde 1999 e é acusado por muitos de se manter no poder por meio de um regime repressivo. Além disto, uma grande quantidade de cidadãos abaixo dos 30 anos está sem emprego e enfrentando problemas sérios de habitação. A corrupção disseminada no governo e a baixíssima qualidade dos serviços públicos também aumentam a insatisfação dos argelinos. Nos anos 1990, a política na Argélia foi dominada por uma luta entre os militares e grupos muçulmanos. Em 1992, uma eleição geral vencida por um partido islâmico foi anulada, levando a uma sangrenta guerra civil que deixou mais de 150 mil mortos. A correspondente acredita que a lembrança deste conflito, em que pessoas eram decapitadas em plena luz do dia, pode "diminuir o apetite dos argelinos por um levante político". – Lamento dizer que o governo alocou uma enorme força para impedir uma manifestação pacífica. Isso não é bom para a imagem da Argélia – disse Mustafa Bouchachi, líder da Liga de Direitos Humanos que colabora na organização do protesto. Uma revolta generalizada na Argélia poderia ter consequências na economia mundial, porque o país é um importante exportador de gás e petróleo. Preocupação

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Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal que, assim como a França, mantém fortes laços comerciais com a Argélia, afirmou, neste sábado, que o Magrebe (a região norte-africana que abrange o Marrocos, Sahara Ocidental, Argélia e Tunísia), enfrenta um "processo de mudança irreversível". Mas preferiu não superestimar os levantes na Argélia. Ele acredita que os países daquela região têm encontrado "respostas adequadas". Chefe da diplomacia portuguesa, Amado, que falou aos jornalistas durante um fórum em Lisboa, acredita ainda que os interesses estratégicos de Portugal na Argélia, aem especial o fornecimento de gás, não estão ameaçados. – Não vamos dramatizar o que acontece neste momento na Argélia. Desconheço ainda os fatos que ocorrem neste momento, mas teremos oportunidade de acompanhar essa situação. Não vejo que esses acontecimentos, face às experiências de outros países da região, possam ameaçar nossos interesses – afirmou.

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