Parece engraçado pronunciar esta frase: “Que a República seja do Povo”, afinal, (do latim) res publica significa “coisa pública”, isto é, coisa que pertence ao povo. Como a coisa pertence ao povo, cabe ao povo governa-la. Mas como o povo é muito ocupado e no governo não tem serviços parra todos, então se escolhe alguns de seus membros para cuidar da coisa em tempo integral, mantendo-a em pleno funcionamento de acordo com a vontade do povo que é o seu legitimo dono. Esta coisa que é pública, que é do povo, é nada menos que uma nação. Portanto, não é pouca coisa. É, na verdade, um conjunto de muitas coisas que chamamos de República.
Para nós a palavra coisa é um pouco pejorativa. A usamos quando algo não tem nome definido. Mas a coisa do povo, a República, que agora nos referimos, é constituída de muitas, grandes e pequenas, coisas. E são tantas coisas que até se confunde sobre o que é coisa do povo e o que é particular. E no meio da confusão, o povo acaba sendo lesado. Acho até que deveríamos fazer um grande inventário para rever o lugar das coisas neste país. E, se for o caso, fazer com que se devolvam todas as coisas, grande e pequenas, que pertencem ao povo.
Muitas escolas, universidades, hospitais são do povo, mas uma parte do povo, especialmente os mais pobres, nem sempre tem aceso, por exemplo, a uma universidade pública, uma escola técnica e tantos outros. As estradas são do povo, mas nem sempre o povo pode circular por elas. Às vezes por causa do pedágio que é um segundo pagamento pela sua conservação. Outras vezes o povo é impossibilitado a andar por suas estradas quando acontece, por exemplo, o que aconteceu com os Sem Terra no Rio Grande do Sul, que foram proibidos, por decisão da Justiça, a seguirem sua marcha. Enfim, por várias razões, ocorre que parte do povo, dono de tudo, fique desprestigiado diante do que é seu.
Para cuidar da República, o povo contrata pessoas que desenvolvem as mais diversas funções. Alguns são contratados para manter limpas as ruas das cidades, outros incumbidos a cuidar da segurança, da educação, da saúde e etc. E alguns são contratados para funções bem estratégicas, como manter a governabilidade, a harmonia de poderes e cuidar das finanças do povo. Mas, ocorre que, alguns destes contratados pelo povo, resolvem se comportar como se as coisas fossem exclusivamente deles. Apropriam-se de um alto salário e de muitos outros privilégios. E alguns lacaios ainda entregam coisas do povo para particulares e até para estrangeiros e multinacionais. Para citar um exemplo, o presidente Fernando Henrique vendeu a Companhia Vale do Rio Doce, cometendo dois erros graves. Primeiro, vendeu algo que pertencia ao povo sem consultá-lo. Em qualquer outra instancia, isto seria considerado um crime e o criminoso seria sentenciado. Segundo, vendeu por um valor extremamente inferior ao que a empresa valia. Neste caso deixou de valer os princípios republicanos. FHC governou como um imperador, um rei e não como um presidente republicano.
Está na hora de revermos nossos conceitos e princípios, especialmente com relação à política, que é a arte de cuidar das coisas públicas. O povo, que religiosamente paga a conta de tudo, deveria ser mais soberano, poder definir melhor o funcionamento das coisas e o modo de como seus contratados devam trabalhar. Não podemos mais continuar nos achando importantes com um regime de governo chamado de República, quando na prática isto não acontece. Lembro que quando Lula assumiu a presidência, alguém disse que ele teria de Re-proclamar a República. Lula poderia servir ao povo neste aspecto, sim, mas o que precisa acontecer é que o próprio povo brasileiro proclame sua República.
Frei Pilato Pereira é frade capuchinho.
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