Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

<i>Quase Dois Irmãos</i> traz extremos da sociedade do Brasil

Segunda, 04 de Abril de 2005 às 16:06, por: CdB

"Quase Dois Irmãos", o novo filme da diretora carioca Lúcia Murat, estréia nacional nesta sexta-feira, expõe com rara densidade a profunda divisão social brasileira.

Para isso, a história une dois mundos: o da diretora, com sua bagagem de classe média e ex-presa política, e o do escritor Paulo Lins, autor do celebrado "Cidade de Deus", livro que deu origem ao filme de Fernando Meirelles.

Juntos, os dois fizeram um roteiro lúcido e tenso, que expõe os fatores que unem e separam a cidade e a favela, a civilização e a barbárie. A diretora assina o que pode ser desde já apontado como um dos melhores filmes nacionais do ano.

Numa narrativa sofisticada, que oscila entre vários tempos, ela localiza os dois protagonistas: Miguel (na fase adulta, interpretado por Caco Ciocler) e Jorge (Flávio Bauraqui).

Miguel é o menino de classe média, que cresce para ser intelectual e militante da guerrilha e, em plena ditadura, vira preso político na Ilha Grande (RJ). Nesse presídio, ele reencontra Jorge, filho de sua empregada.

Os dois cresceram juntos na mesma casa e agora serão as duas pontas desta realidade. Miguel, o intelectual organizador, Jorge, o instintivo e prático, dono da sabedoria das ruas.

Pela convivência entre presos políticos e comuns, acaba nascendo aí uma organização diferente, um mundo com regras que costumavam chegar às prisões.

Com decisões tomadas coletivamente, greves de fome de protesto e proibição de drogas, por algum tempo o presídio se torna um universo insolitamente ordenado, enquanto a ditadura corre solta do lado de fora.

Na fase seguinte, as noções de política ensinadas aos presos comuns lembram a organização da criminalidade em facções, que hoje comandam o tráfico de armas, drogas, etc. Em outras palavras, o crime organizado com todo o seu brutal impacto sobre a sociedade.

Um dos detalhes impressionantes do filme é mostrar a menina Juliana (Maria Flor), filha de Miguel, subindo voluntariamente o morro, atraída por um jovem chefe do tráfico, Deley (Renato Souza) -- um relacionamento que entrou no roteiro a partir de entrevistas de pesquisa da equipe do filme com meninas de classe média.

Da mesma maneira, o filme expõe as atuais contradições de Miguel (na meia-idade, interpretado por Werner Schunemann), que se tornou advogado e vem negociar a instalação de um projeto social na comunidade comandada por seu velho amigo Jorge (Antônio Pompeo) de uma cela no presídio de Bangu.

Compondo um retrato visceral do Brasil moderno, "Quase Dois Irmãos" é um pungente momento de reflexão, a que não faltam, sabiamente, nem humor, nem esperança. Lúcia Murat fez um filme belo, forte, triste e necessário.

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