Rio de Janeiro, 01 de Janeiro de 2026

Quando os "heróis" se matam

Por Flávio Aguiar: Meu amigo Saul Leblon anda preocupado com filmes e a qualidade narrativa dos tempos neo-liberais. Viajou a Iwo Jima e aterrisou na Renault francesa, onde o desarticulado enredo neoliberal acabou em tragédia. (Leia Mais)

Sábado, 10 de Março de 2007 às 12:03, por: CdB

"Meu caro Flávio Aguiar:

Um dos problemas de reprodução da ideologia conservadora é que ela já
não produz mais heróis. Convenhamos, o arcabouço épico atual, restrito a
uma esférica blindagem dos detentores da riqueza, não ajuda. Desejos de
futuro? Igualmente bisonhos: liberdade para os capitais, reengenharia de
produção. O que mais? Tudo nada entusiasmante...: obsolescência precoce
de carreiras e recursos humanos, ou seja, gente. Desmanche das redes de
proteção social. Flexibilização de direitos trabalhistas. Guerra à
previdência pública. Rapinagem das bases de sustentação da vida no
planeta...

Dificilmente um gênio narrativo extrairia dessa batéia alguma pepita de
quilate equivalente à da foto protagonizada pelos fuzileiros navais dos
EUA em Iwo Jima, um dos momentos mais dramáticos e cinematográficos da
II Guerra Mundial. Quando hastearam o estandarte norte-americano no topo da ilha, considerada santuário estratégico pelos japoneses, os jovens
soldados irradiavam, mesmo inconscientes disso, um apelo heróico que
iria reabastecer "as reservas de valores morais e financeiros do
ocidente" por vários anos e vários anos, durante e depois do conflito.

A ironia é que mesmo esta cena de rara beleza plástica não passou de uma
fraude. Uma foto posada, como mostra com a maestria peculiar dos bons
contadores de história, o diretor Clint Eastwood, no excelente trabalho
de reconstrução feito em "A Conquista da Honra". Misto de documentário e
ficção seu filme não discute a guerra. É o poder da mídia que está em
questão. E aos poucos fica nítido que ele é decisivo e talvez maior até
que o poder de fogo nos campos de batalha. A propaganda dá vida própria
à foto montada, cria fatos, materializa versões e modela assim a alma de
um tempo e de um povo à imagem e semelhança de seus heróis, mesmo a
contragosto deles, como deixa claro a resistência de um fuzileiro que
participou da encenação mas não compactua com a endogamia entre o poder e a publicidade.

Sempre pairou dúvida quanto à autenticidade da foto de Iwo Jima. Clint
não esconde isso. A construção da foto e suas conseqüências na vida de
seus personagens já fora abordada no excelente filme "The outsider" (O
sexto homem, em português), de 1961, dirigido por Delbert Mann (filmou,
entre outros, a adaptação para o cinema de "Nada de novo na frente
ocidental", do escritor alemão Erich Maria Remarque). Em "The outsider"
Tony Curtis faz o papel de Ira Hayes, um dos personagens da foto, que
tinha o apelido de "Chefe", por causa de sua ascendência índia. Famoso,
Hayes envolve-se na trama de revelar/ocultar os nomes de alguns dos
participantes e a origem da foto, e termina a vida alcoólatra e
desacreditado. O desempenho de Curtis é magistral.

Mas só em 2006 a suspeita foi completamente dissecada pela arte de um
cineasta de extração conservadora, porém brilhante o suficiente para
preservar a capacidade de fazer perguntas e encarar dúvidas quanto à
ambigüidade dos valores do seu país e do grau de liberdade que seus
cidadãos têm de fato para comandar o próprio destino.

Clint Eastwood cutucou a memória adormecida por trás da imagem vencedora e revelou uma sociedade que precisa de heróis para não enxergar o moedor de carne onde espreme quantidades industriais de loosers e desajustados. Revela-se então o emaranhado tenso e atual das relações entre poder e mídia, entre a engrenagem dominante de uma época e a dificuldade que enfrentamos, a exemplo do fuzileiro que resiste à encenação, para "organizar as histórias de nossas vidas num capitalismo que nos deixa à deriva", como resume o sociólogo americano Richard Senett, no livro "A corrosão do caráter".

A imagem da conquista de Iwo Jima, bem como as vidas -e mortes -- nela
envolvidas, foi habilmente manipulada pelo governo Roosevelt. Clint
Ea

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