O tipo que marcou o nosso reencontro, na última fase da vida do Murilinho, foi o Gulliver, do holandês Gerard Unger, que também fez o Coranto, usado pelo jornal Valor. Pena que não o tenha agora para vestir este tributo. Então, vamos adiante mesmo com o Georgia, que é um dos meus preferidos atualmente.
Havia tempo que não trabalhávamos juntos. Separamo-nos quando Mu passou para a publicidade, e eu continuei no JT/ Estadão/Eldorado, correspondente oito anos em Israel, seis em Washington e mais dois anos em Paris, então para a Época – quase 20 anos sem nos ver, falar ou escrever.
Foi o Murilo quem me tirou de Belo Horizonte, no final de 1965, para formar a equipe que fundaria o JT no começo de 1966, e também do Brasil, para o Oriente Médio, em 1977, quando o presidente egípcio Anuar Sadat visitou Jerusalém, iniciando o processo de paz com Israel, ainda hoje muito longe de ser concluído.
– Vai e espera a paz – ele me pediu.
Agora estávamos de volta ao JT para recriá-lo, sob a direção de Fernão Mesquita. Reencontrei Murilinho excitado com o trabalho, como nos primeiros tempos. Mas sua saúde estava fragilizada, desde um escorregão feio na neve, em Nova York. Quebrou uma perna. Ficou um tempo hospitalizado, até voltar a São Paulo. Já não carregava mais jornais e revistas debaixo do braço, a sua antiga marca registrada. E mancava. Saía da redação para sessões de fisioterapia. E parecia ainda mais encurvado que antes. Tomava uma cápsula dissolvida em água, e alguns outros comprimidos, mas não os apresentava nem os explicava a ninguém. Já não ria da hipocondria que costumava projetar nos amigos. Nem se vangloriava de sua terapia ortodoxa.
– O Samuel anda de farmácia em farmácia perguntando: chegou alguma novidade da Bayer? – era um de seus casos preferidos. Ele próprio tinha se revelado um hipocondríaco sofisticado ao perguntar ao “Dr. Lisboa”, na verdade apenas um jornalista: “Existe câncer no coração?” Uma vez, a bordo de seu Opala branco, todo branco por dentro, como as paredes e os sofás de sua sala na redação, atravessou a Rebouças distraído. Um carro o pegou. Perdeu a memória por quase um mês. E recomeçou a viver com muito medo da morte. Tornou-o público, em conversas com amigos.
Mudou de assunto – não mais a morbidez que o perseguia. Quando não falava de jornalismo, contava da interminável reforma em seu apartamento. Interessava-se por qualquer obra em andamento. Queria saber de pisos, maçanetas, pias, azulejos. E dava palpites, tão informado quanto em sua outra incontestável especialidade, os aparelhos de som. Pedia-me para entrar em sites suecos, ele que ainda não sabia navegar na internet, para ficar apreciando válvulas. E se deleitava. Prometia que logo compraria um computador, só que antes queria ter certeza: Mac ou PC? Não tinha email. Ele gostava é de bilhetes em laudas, quanto mais comprometedores melhor. Colecionava-os. Uma vez me surpreendeu trazendo todos os meus pedidos de demissão, alguns amarelecidos pelo tempo.
A primeira missão que recebi no nosso reencontro foi a de descobrir qual era, afinal, aquele tipo usado no USA Today. A reforma do Murilo já estava andando quando voltei ao JT. Eu recuperava os anos de separação rapidamente. Muita coisa continuava igual. Redatores paparicados ontem, hoje desprezados. Tensão nas relações, nas reuniões e pelos corredores. Reclamações zangadas. Novo layout na redação para afastar quem tinha se tornado vizinho inconveniente da chefia. E a musa. Numa redação de Murilo havia que ter uma. Assim foi no Departamento de Pesquisa do JB. E no JT. Tudo temperado por muita fofoca, venenos inventados que criavam um clima no qual ele se sentia bem à vontade. Assédio moral? Não, isso não existia, mesmo que não o tratassem mais como um déspota, a “Rainha”, o célebre apelido que acabou ao se colorir a fase do puro branco.
Quando Murilo fazia o JT
Moisés Rabinovici - Murilo (Felisberto, do Jornal da Tarde) dizia sempre que da primeira frase depende a leitura do resto de um texto.
Domingo, 05 de Julho de 2015 às 07:19, por: CdB
O tipo que marcou o nosso reencontro, na última fase da vida do Murilinho, foi o Gulliver, do holandês Gerard Unger, que também fez o Coranto, usado pelo jornal Valor. Pena que não o tenha agora para vestir este tributo. Então, vamos adiante mesmo com o Georgia, que é um dos meus preferidos atualmente.
Havia tempo que não trabalhávamos juntos. Separamo-nos quando Mu passou para a publicidade, e eu continuei no JT/ Estadão/Eldorado, correspondente oito anos em Israel, seis em Washington e mais dois anos em Paris, então para a Época – quase 20 anos sem nos ver, falar ou escrever.
Foi o Murilo quem me tirou de Belo Horizonte, no final de 1965, para formar a equipe que fundaria o JT no começo de 1966, e também do Brasil, para o Oriente Médio, em 1977, quando o presidente egípcio Anuar Sadat visitou Jerusalém, iniciando o processo de paz com Israel, ainda hoje muito longe de ser concluído.
– Vai e espera a paz – ele me pediu.
Agora estávamos de volta ao JT para recriá-lo, sob a direção de Fernão Mesquita. Reencontrei Murilinho excitado com o trabalho, como nos primeiros tempos. Mas sua saúde estava fragilizada, desde um escorregão feio na neve, em Nova York. Quebrou uma perna. Ficou um tempo hospitalizado, até voltar a São Paulo. Já não carregava mais jornais e revistas debaixo do braço, a sua antiga marca registrada. E mancava. Saía da redação para sessões de fisioterapia. E parecia ainda mais encurvado que antes. Tomava uma cápsula dissolvida em água, e alguns outros comprimidos, mas não os apresentava nem os explicava a ninguém. Já não ria da hipocondria que costumava projetar nos amigos. Nem se vangloriava de sua terapia ortodoxa.
– O Samuel anda de farmácia em farmácia perguntando: chegou alguma novidade da Bayer? – era um de seus casos preferidos. Ele próprio tinha se revelado um hipocondríaco sofisticado ao perguntar ao “Dr. Lisboa”, na verdade apenas um jornalista: “Existe câncer no coração?” Uma vez, a bordo de seu Opala branco, todo branco por dentro, como as paredes e os sofás de sua sala na redação, atravessou a Rebouças distraído. Um carro o pegou. Perdeu a memória por quase um mês. E recomeçou a viver com muito medo da morte. Tornou-o público, em conversas com amigos.
Mudou de assunto – não mais a morbidez que o perseguia. Quando não falava de jornalismo, contava da interminável reforma em seu apartamento. Interessava-se por qualquer obra em andamento. Queria saber de pisos, maçanetas, pias, azulejos. E dava palpites, tão informado quanto em sua outra incontestável especialidade, os aparelhos de som. Pedia-me para entrar em sites suecos, ele que ainda não sabia navegar na internet, para ficar apreciando válvulas. E se deleitava. Prometia que logo compraria um computador, só que antes queria ter certeza: Mac ou PC? Não tinha email. Ele gostava é de bilhetes em laudas, quanto mais comprometedores melhor. Colecionava-os. Uma vez me surpreendeu trazendo todos os meus pedidos de demissão, alguns amarelecidos pelo tempo.
A primeira missão que recebi no nosso reencontro foi a de descobrir qual era, afinal, aquele tipo usado no USA Today. A reforma do Murilo já estava andando quando voltei ao JT. Eu recuperava os anos de separação rapidamente. Muita coisa continuava igual. Redatores paparicados ontem, hoje desprezados. Tensão nas relações, nas reuniões e pelos corredores. Reclamações zangadas. Novo layout na redação para afastar quem tinha se tornado vizinho inconveniente da chefia. E a musa. Numa redação de Murilo havia que ter uma. Assim foi no Departamento de Pesquisa do JB. E no JT. Tudo temperado por muita fofoca, venenos inventados que criavam um clima no qual ele se sentia bem à vontade. Assédio moral? Não, isso não existia, mesmo que não o tratassem mais como um déspota, a “Rainha”, o célebre apelido que acabou ao se colorir a fase do puro branco.