Eles estavam muito perto. A menos de 50 metros da singela entrada do 12 de setembro, nome do edifício onde moro, na avenida Nove de Julho, São Paulo. Durante três dias passei os olhos diante do acampamento, plásticos pretos, pedaços de papelão recortado, cordas pra lá e pra cá. E crianças, muitas crianças. Imaginava os caminhos sinuosos dos corredores virtuais dos barracos das mais de 650 famílias acampadas em frente à sede do CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo). Reivindicação dos acampados: teto, casa pra morar. Cinco dias atrás, haviam sido enxotados do prédio onde funcionava o Hotel Danúbio, antigo reduto burguês no centro de São Paulo, ocupado por eles na semana anterior.
Sem destino seguro, bateram à porta de quem tem poder para resolver o pepino. Passaram-se três dias até que fossem recebidos pelo auxiliar do auxiliar do presidente da companhia. A avenida onde estavam acampados tem características um tanto especiais, principalmente naquele trecho: as calçadas são pequenas ao extremo e os carros passam a uma velocidade considerável. Os prédios em volta, escritórios de alto padrão ou residências de classe média. A avenida, por sinal, é a divisa dos bairros Jardim Europa, de mansões de quarteirões inteiros, e o Itaim Bibi, reduto de apartamentos muito bem alinhados. Nada mais ultrajante para este par de bairros, portanto, servir de base aos sem teto que ocupavam, além da calçada e canteiro da avenida, também as ruas laterais.
Num cair de noite, os obstáculos entre o 12 de setembro e o acampamento, foram vencidos. Minutos atrás não havia conseguido parar meu carro no lugar habitual, infestado dos guardiões da lei, devidamente acompanhados pela tropa de choque. Conformado, deixei o carro mais longe, guardei minhas coisas em casa e fui visitar o acampamento. O momento era tenso. O corre-corre denunciava adrenalina alta, situação de risco. As mulheres corriam entre as barracas, procurando suas crianças para protegê-las de uma anunciada invasão da polícia militar. Muitas delas choravam e gritavam por suas crias. "Daqui a pouco elas acostumam. Essas com certeza entraram no movimento faz pouco tempo. Daqui a pouco passa", desvendou um dos senhores que naquele momento acompanhava os movimentos ao meu lado, num canteiro lateral. E passou. A tropa de choque, por enquanto, permanecia imóvel. Os líderes do acampamento, depois constatei, estavam numa reunião dentro do prédio, negociando a ida para um alojamento.
Finalizado o encontro, desceram e realizaram uma assembléia improvisada, seus gritos competindo com os carros e buzinas da avenida. O recado do governador era simples: ou iam para um terreno na zona leste ou sairiam à força. Constatado o poderio policial, a decisão foi a de partir. Para onde? Ninguém sabia ou conhecia o terreno, já que a origem da maioria era o outro extremo da cidade. Gritos de ordem tentavam animar o ambiente, mas a sentença já havia sido dada: mais uma derrota. Os olhos diziam, as palavras não deixavam dúvidas. O barulho constante, as falas sucessivas e sobrepostas davam lugar ao silencio. Agora, só os carros falavam, sem prestar mais atenção no que acontecia ao seu lado.
Hora de arrumar as malas. Alguns colchões, mochilas, travesseiros. E plásticos pretos, muitos plásticos pretos. Para o exército de crianças, era servido uma refeição antes da partida. Outra como essa, talvez só na noite seguinte. Vinte minutos e estava tudo no chão. A prática do monta-desmonta-amarra era
geral. Até os mais novos sabiam exatamente o que fazer, afinal, o caminhão para levar tudo para o não-sei-onde já estava lá. E com pressa. Ao meu lado, um rapaz arrumava algumas panelas e bandejas, instrumentos de sobrevivência coletivos. Era um dos únicos agitados, falava sem parar e o
bater dos objetos afugentou quem estava por perto. "Queria ser o Bin Laden. Pegar um avião da Varig e explodir isso daqui".
Me aproximei e puxei conversa. "Não sei