Charlie Chaplin tinha os telefones grampeados, Paul Klee virou suíço depois de morto, Bertolt Brecht teve visto negado pela Suíça.
Alguns anos antes de Charlie Chaplin, travestido em Senhor Verdoux, se instalar em Vevey na Suíça, foi o apátrida Bertolt Brecht quem tentou se instalar na Suíça. Chegou em 1947 em Zurique, vindo de Nova Iorque. Começava, nessa época, nos Estados Unidos a caça às bruxas, ordenada pelo presidente Truman, precedendo a instalação do macartismo que resultou na prisão e destruição profissional dos atores, escritores , cineastas e intelectuais suspeitos de simpatia pelo comunismo. O dramaturgo alemão Bertold Brecht, exilado durante a guerra nos EUA, estava entre os visados e preferiu fugir antes de ser preso.
Sua situação era precária - destituído pelos nazistas da nacionalidade alemã, Brecht não tinha passaporte, era o que se chama de apátrida e viajava com salvoconduto. Foi nessa condição de apátrida, acusado de comunista que desembarcou em Zurique, onde pediu asilo.
Novos documentos encontrados revelam que o célebre autor de peças representadas em todo mundo inclusive no Brasil desejava, naquela época, se fixar na Suíça, a fim de poder gozar de uma maior independência com relação às duas Alemanhas saídas da derrota do nazismo - a ocidental, ocupada pelos estadunidenses, ingleses e francêses; e a comunista, ocupada pelos russos. A decisão de Brecht de viver na Alemanha comunista e ali fundar o Grupo Berlinense veio depois da negativa suíça de lhe conceder residência definitiva. Brecht, durante dois anos, viveu na Suíça com visto provisório de residência mas com proibição de se estabelecer como diretor de teatro.
Alguns anos antes, outro artista, pintor, nascido na região de Berna mas de pai alemão, vinha lutando para ser suíço. Professor no Bauhaus, na Alemanha, onde tinha ido viver, fora destituído de seu cargo pelos nazistas e suas telas arrancadas dos museus. De volta ao país de seu nascimento, requereu a nacionalidade suíça, mas a época não era propícia - seus quadros abstratos rejeitados pelos nazistas eram também considerados como negativos pelos mentores da cultura suíça, além de serem suspeitos de esquerdizantes. O resultado é que Paul Klee, hoje considerado glória da cidade de Berna que lhe construiu recentemente um moderno museu, projetado pelo arquiteto Renzo Piano, morreu alemão. A nacionalidade suíça só lhe foi concedida a título póstumo, uma semana depois de sua morte.
Se Charlie Chaplin tivesse pedido residência na Suíça como Carlito, não teria obtido, mas chegou como artista famoso e já rico. Mesmo assim, como se revelou mais tarde, seu telefone e sua correspondência estiverem sempre grampeados. Bertolt Brecht não teve essa chance. Sua glória viria mais tarde, mesmo se em 1947, já tivesse um nome respeitado. Era a época da guerra-fria e o FBI americano advertiu a Suíça para não dar residência ao perigoso comunista. Isso não impediu o sucesso das peças de Brecht, mas a Suíça perdeu a chance de ter um Brecht suíço.
Ao contrário da França que naturaliza esportistas, escritores, artistas e cientistas, desde a polonesa Marie-Curie até o argelino Zinedine Zidane, a Suíça rejeitou muita gente que lhe poderia ter trazido renome e respeito, já que tirando-se Max Frish, Friedrich Duerenmatt, Blaise Cendrars, Godard, Giacometti e Jean Ziegler seus artistas e intelectuais de projeção internacional são raros.
O caso do angolano Manuel, preso como delinquente por ter desejado ser suíço, depois de ter passado 15 anos na Suíça, desde criança, vindo de um país em guerra, não é único. Bem antes dele, houve muitos e muitos estrangeiros rejeitados, entre eles Bertolt Brecht.
Alguns anos antes de Charlie Chaplin, travestido em Senhor Verdoux, se instalar em Vevey na Suíça, foi o apátrida Bertolt Brecht quem tentou se instalar na Suíça. Chegou em 1947 em Zurique, vindo de Nova Iorque. Começava, nessa época, nos Estados Unidos a caça às bruxas, ordenada pelo presidente Truman, precedendo a instalação do macartismo que resultou na prisão e destruição profissional dos atores, escritores , cineastas e intelectuais suspeitos de simpatia pelo comunismo. O dramaturgo alemão Bertold Brecht, exilado durante a guerra nos EUA, estava entre os visados e preferiu fugir antes de ser preso.
Sua situação era precária - destituído pelos nazistas da nacionalidade alemã, Brecht não tinha passaporte, era o que se chama de apátrida e viajava com salvoconduto. Foi nessa condição de apátrida, acusado de comunista que desembarcou em Zurique, onde pediu asilo.
Novos documentos encontrados revelam que o célebre autor de peças representadas em todo mundo inclusive no Brasil desejava, naquela época, se fixar na Suíça, a fim de poder gozar de uma maior independência com relação às duas Alemanhas saídas da derrota do nazismo - a ocidental, ocupada pelos estadunidenses, ingleses e francêses; e a comunista, ocupada pelos russos. A decisão de Brecht de viver na Alemanha comunista e ali fundar o Grupo Berlinense veio depois da negativa suíça de lhe conceder residência definitiva. Brecht, durante dois anos, viveu na Suíça com visto provisório de residência mas com proibição de se estabelecer como diretor de teatro.
Alguns anos antes, outro artista, pintor, nascido na região de Berna mas de pai alemão, vinha lutando para ser suíço. Professor no Bauhaus, na Alemanha, onde tinha ido viver, fora destituído de seu cargo pelos nazistas e suas telas arrancadas dos museus. De volta ao país de seu nascimento, requereu a nacionalidade suíça, mas a época não era propícia - seus quadros abstratos rejeitados pelos nazistas eram também considerados como negativos pelos mentores da cultura suíça, além de serem suspeitos de esquerdizantes. O resultado é que Paul Klee, hoje considerado glória da cidade de Berna que lhe construiu recentemente um moderno museu, projetado pelo arquiteto Renzo Piano, morreu alemão. A nacionalidade suíça só lhe foi concedida a título póstumo, uma semana depois de sua morte.
Se Charlie Chaplin tivesse pedido residência na Suíça como Carlito, não teria obtido, mas chegou como artista famoso e já rico. Mesmo assim, como se revelou mais tarde, seu telefone e sua correspondência estiverem sempre grampeados. Bertolt Brecht não teve essa chance. Sua glória viria mais tarde, mesmo se em 1947, já tivesse um nome respeitado. Era a época da guerra-fria e o FBI americano advertiu a Suíça para não dar residência ao perigoso comunista. Isso não impediu o sucesso das peças de Brecht, mas a Suíça perdeu a chance de ter um Brecht suíço.
Ao contrário da França que naturaliza esportistas, escritores, artistas e cientistas, desde a polonesa Marie-Curie até o argelino Zinedine Zidane, a Suíça rejeitou muita gente que lhe poderia ter trazido renome e respeito, já que tirando-se Max Frish, Friedrich Duerenmatt, Blaise Cendrars, Godard, Giacometti e Jean Ziegler seus artistas e intelectuais de projeção internacional são raros.
O caso do angolano Manuel, preso como delinquente por ter desejado ser suíço, depois de ter passado 15 anos na Suíça, desde criança, vindo de um país em guerra, não é único. Bem antes dele, houve muitos e muitos estrangeiros rejeitados, entre eles Bertolt Brecht.