Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Qual é, Lula?

O governo agride, faz uma demagogia primária, porque não consegue responder aos questionamentos sérios feitos à transposição: 70% da água para irrigação e criação de camarão; 26% para o meio urbano e apenas 4% para a população que hoje já passa sede. (Leia Mais)

Sábado, 19 de Março de 2005 às 07:42, por: CdB

"Só não tem preocupação com isso quem não sabe o que é seca. Só não tem preocupação com isso o que é ver seu único animal, a cabrinha ou a vaquinha que dão leite para o seu filho morrer de sede na porta da sua casa. Só não tem preocupação com isso quem mora em apartamento confortável, com ar-condicionado e tomando água engarrafada, que não se preocupa com o irmão que está morrendo de sede", afirmou Lula. (FSP, 16/03/2005)

Quem é que mora em apartamento? Quem bebe água engarrafada? Quem tem ar condicionado? Quem tem piscina? Quem passa sede? Quem é que está mesmo preocupado e envolvido com a luta pela superação da sede aqui no semi-árido? Aqueles que estão em Brasília? Será que aqueles que vivem aqui no semi-árido, envolvidos com as populações rurais, penando para construir uma simples cisterna, enfrentando a coronelada sertaneja, não merecem respeito?

Com esse discurso Lula tem feito acusações generalizadas e agressivas. O governo agride, faz uma demagogia primária, porque não consegue responder aos questionamentos sérios feitos à transposição: 70% da água para irrigação e criação de camarão; 26% para o meio urbano e apenas 4% para a população que hoje já passa sede.

O governo não consegue responder às críticas da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), do Banco Mundial, da Articulação do Semi-árido (ASA), de mestres da água como João Abner da Costa, Aldo Rebouças, Manoel Bonfim e tantos outros. O que todas essas personalidades e entidades dizem é que o caminho para superação da sede é outro, não a transposição, verdadeira obsessão governamental. É preciso aproveitar os 750 milhões de m³ de água de chuva que cai sobre o sertão todos os anos e que vão embora pela evaporação. É preciso que toda essa água seja captada em tecnologias simples - elas são tantas! - que não permitam sua evaporação, casa a casa, onde o povo está. É preciso aproveitar as águas de subterrâneas, como as do Piauí, onde só o poço Violeta ejeta a 40 metros de altura cerca de 600 m³ de água por hora. É preciso fazer adutoras para abastecer comunidades que estão ao longo da calha do São Francisco, mas também próximas ao Orós, Castanhão, Armando Ribeiro e demais grandes açudes do Nordeste Setentrional. Enfim, é preciso zelar pela água, aproveitar a gota disponível, aumentar a oferta de água através de uma captação inteligente e não apenas pensar em aumentar o consumo.

E quem acha que no Nordeste Setentrional não tem água para consumo humano, leia o balanço hídrico dos Estados Brasileiros feito por Aldo Rebouças e confirmado por João Abner da Costa. Procurem no Texto Base da Campanha da Fraternidade de 2004 que lá está. Ainda mais, a maior parte dessa água hoje já é usada para irrigação e criação de camarão. Portanto, justificar a transposição sob o pretexto da sede humana, não tem nenhum fundamento de realidade. Quem quer resolver o problema da sede humana, tem outra concepção do que seja o semi-árido e propõe outro tipo de saída que não a transposição. Isso tem sido dito à exaustão, mas o governo não ouve.

Certos mitos só mostram sua fragilidade depois que se estilhaçam no chão. Será que teremos que ver o dinheiro público jogado fora, a população que sempre sofreu com sede ainda esperar por mais duas décadas, para depois questionar a viabilidade dessa obra?

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