A forma de organização da quadrilha de narcotraficantes desarticulada nesta sexta-feira pela Operação Muralha surpreendeu a Polícia Federal (PF). Em entrevista na sede da superintendência da PF, na capital, o delegado de Repressão a Crimes e Entorpecentes de São Paulo, Carlos Eduardo Pelegrini, disse que foi a primeira vez que viu uma quadrilha do gênero constituir empresa legalmente. A quadrilha chegou a abrir uma empresa para contrair crédito em bancos.
— Foi constituída uma empresa para, unicamente, ter crédito nas instituições financeiras, para financiar o tráfico. Isso é algo inédito em nosso país. A Polícia Federal nunca se deparou com uma quadrilha articulada desse nível, profissional especializado, que constituísse uma empresa para financiar o tráfico —, afirmou.
De acordo com Pelegrini, um dos responsáveis pela operação, a organização criminosa tinha uma agência de turismo, legalamente constituída, inscrita na Junta Comercial e na Receita Federal, com a função exclusiva de conseguir crédito nos bancos. Com os recursos obtidos, a quadrilha financiava as operações do tráfico de entorpecentes.
A drogas vinham da Bolívia, Colômbia, Peru e Paraguai, passavam por conexões em vários estados brasileiros e, posteriormente, eram enviadas por navios que saíam para o exterior pelos portos de Vitória, Rio de Janeiro, Santos (SP), São Francisco do Sul (SC) e Paranaguá (PR).
Para transitar com as drogas no Brasil, sem chamar a atenção das autoridades, a quadrilha dissolvia os entorpecentes em cachaça ou os misturava a cereais. Para embarcar com as mercadorias nos navios, membros do grupo cooptavam estivadores para, geralmente à noite, levar as drogas para dentro das embarcações. Os destinos mais comuns eram países da Europa e África.
De acordo com a polícia, o grupo criminoso era liderado pelo peruano Rafael Pablos e pelo colombiano Eduardo Echevaria. Ambos cumprem pena no presídio de Itaí, cidade do interior do estado de São Paulo. Para exercerem o comando da quadrilha, os criminosos utilizavam-se, de dentro do presídio, de telefones celulares. Segundo a PF, já foi solicitada à Justiça a transferência dos dois chefes do grupo para alas diferenciadas do presídio, onde devem ficar em regime especial.
Nesta sexta-feira, a Polícia Federal prendeu 17 pessoas acusadas de envolvimento com a quadrilha. As prisões foram efetuadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Pará. Outros 11 mandados de prisão devem ser cumpridos nos próximos dias. Desde o início da operação, em agosto de 2006, 107 pessoas já foram presas.
Quadrilha presa pela PF tinha até empresa legalmente constituída
Sexta, 11 de Abril de 2008 às 18:54, por: CdB