O presidente Vladimir Putin disse nesta sexta-feira que a economia russa se beneficiaria apenas em curto prazo do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução da emissão de poluentes responsáveis pelo aquecimento global, mas não entrará em vigor se Moscou não ratificá-lo.
Mesmo assim, um assessor do presidente disse que o pacto pode ser um marco econômico para a Rússia, que ainda se recupera da crise gerada pelo fim da União Soviética. "Nossa primeira preocupação deveria ser com a grandiosa idéia e com os objetivos que nos impusemos, e não com benefícios econômicos de curto prazo", afirmou ele na reunião do Fórum Econômico Mundial em Moscou.
Especialistas dizem que a Rússia poderia ganhar bilhões de dólares usando o mecanismo do Protocolo que permite aos países venderem a sua cota de emissão de dióxido de carbono para outros. Isso seria possível porque o parque industrial russo tem grande capacidade ociosa desde a década de 1990. "Hoje a Rússia tem a oportunidade de vender quotas", disse Putin. "Esperamos que tais oportunidades em breve não existam mais, ou que pelo menos sejam menores, pois contamos com o crescimento econômico."
Putin, que nesta semana recuou da sua promessa de ratificar rapidamente o acordo, não disse quanto tempo ainda vai levar para tomar uma decisão. O tratado só entra em vigor em âmbito mundial após receber a aprovação de países que sejam responsáveis por 55 por cento da emissão global de poluentes.
Cientistas dizem que, se a emissão de dióxido de carbono não for contida, o aquecimento global pode provocar inundações, secas, ondas de calor, tempestades e elevação do nível dos oceanos em todo o planeta. Alguns delegados presentes à Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, que acabou na sexta-feira em Moscou, acham que a Rússia está fazendo suspense sobre o tratado a fim de atrair mais dinheiro do Ocidente. "Mesmo que a economia cresça rapidamente, a Rússia ainda terá quotas de emissões para vender além de 2012, o último ano em que Kyoto vai vigorar'', afirmou Steven Guilbeault, do Greenpeace.
Putin já disse, meio de brincadeira, que a Rússia se beneficiaria do aquecimento global, porque a população não teria de gastar tanto com aquecimento e casacos de pele durante os rigorosos invernos. Por isso, Guilbeault acha que o Kremlin pode paralisar o processo de ratificação do tratado para agradar ao eleitorado, que em dezembro escolhe um novo Parlamento. Mas Putin reiterou que o Protocolo de Kyoto é "um passo na direção correta' na proteção ambiental, embora, segundo ele, tenha pouco impacto sobre o aquecimento global.
Ao discursar no encerramento da conferência climática, o assessor econômico presidencial Andrei Illarionov disse que o Protocolo vai prejudicar o desempenho econômico russo e impedirá o país de atingir a meta, estabelecida por Putin, de que o PIB cresça 7,2% ao ano na próxima década, o dobro do registrado hoje.
"Nenhum país atingiu tal crescimento limitando as emissões (de poluentes)", afirmou.
A Rússia representa 17% das emissões. Somados, os países que já o ratificaram respondem por 44% do dióxido de carbono do mundo.