Manifestantes pró-Rússia ocupam um prédio público na cidade de Luhank, no leste da Ucrânia
O presidente russo, Vladimir Putin, informou a vários líderes europeus sobre a "situação crítica" das dívidas ucranianas pela aquisição de gás natural, alertando para um possível impacto sobre o fluxo de gás da Rússia para a Europa, disseram agências russas de notícias na quinta-feira. Putin manifestou "extrema preocupação com a situação que cerca as dívidas ucranianas pelo gás... e o suprimento de gás para a União Europeia", disse a agência russa de notícias RIA, citando o porta-voz presidencial Dmitry Peskov.
A estatal Gazprom parou de enviar gás à Ucrânia durante disputas acerca do preço, nos invernos de 2005/6 e 2008/9, o que levou à redução da oferta para os países europeus que recebem gás russo via dutos que cruzam a Ucrânia. A Gazprom diz que a Ucrânia lhe deve US$ 2,2 bilhões e deixou de pagar suas contas de março, num momento de forte tensão entre os dois países por causa da anexação da Crimeia por Moscou.
Ainda nesta manhã, o governo russo afirmou ao Ocidente que as conversações entre quatros partes, com representantes da Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e União Europeia, devem se concentrar em promover o diálogo entre os ucranianos e não nas relações bilaterais entre os participantes.
O chanceler russo, Sergei Lavrov, passou esta mensagem em uma conversa telefônica com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia. A pasta afirmou que Lavrov e Kerry pediram a todos os lados que se abstenham de violência no leste e sul da Ucrânia.
Na terça-feira, a União Europeia informou que diplomatas da UE, Rússia, Ucrânia e Estados Unidos se reuniriam na próxima semana para discutir a crise, mas a Rússia disse querer saber mais sobre a agenda dessa reunião.
"Lavrov observou que esse formato pode ser útil se o objetivo não for a discussão de vários aspectos de uma ou outra relação bilateral, mas ajudar a organizar um diálogo interno entre os ucranianos, amplo e igual, com o objetivo de chegar a um acordo para uma reforma constitucional mutuamente aceitável", assinalou o ministério, em nota.
Separatistas
Na noite passada, separatistas pró-Rússia reforçaram as barricadas ao redor do prédio do setor de segurança do Estado em Luhansk, no leste da Ucrânia, e pediram ajuda ao presidente russo, Vladimir Putin, depois que o governo ucraniano alertou que pode usar a força para restaurar a ordem. Os manifestantes também estavam envolvidos em negociações para diminuir o impasse, que o governo interino em Kiev disse que poderia servir de pretexto para uma invasão russa, enquanto parlamentares do leste da Ucrânia propunham uma anistia para os manifestantes para acalmar a tensão.
A antiga sede da KGB, agência secreta da ex-União Soviética, é um dos três prédios do governo tomados nesta semana no leste da Ucrânia por manifestantes que exigem a realização de referendos regionais sobre a sua independência de Kiev. As tensões aumentaram nas regiões onde a maioria da população fala a língua russa, no leste da Ucrânia, depois da derrubada do presidente ucraniano, que era apoiado por Moscou, e da instalação em Kiev de um governo pró-europeu.
– É claro que temos de pedir que a Rússia nos incorpore, porque eu não vejo uma alternativa – disse um homem vestido em uniforme de camuflagem que se identificou como Vasiliy e afirmou ser o comandante do edifício. "Putin, ajude-nos!", afirmou.
Em uma entrevista coletiva realizada no interior do edifício ocupado na noite desta quarta-feira, Valery Bolikov, que disse ser um representante das sedes do Exército do Sul e do Extremo Leste, declarou que as negociações com as autoridades não conseguiram ainda levar a um acordo.
– As negociações continuam, há algumas questões que estão sendo tratadas, mas ainda não se chegou à conclusão lógica – disse ele no ornamentado salão de conferências dos Serviços de Segurança da Ucrânia.
Referendo popular
Embora alguns manifestantes defendam a ideia de união com a Rússia, como ocorreu com a Crimeia, Bolikov disse que suas demandas não vão além de um referendo para decidir dar a Luhansk mais autonomia como parte de uma estrutura federal, na Ucrânia.
– (Vamos deixar o prédio) após o cumprimento de nossas exigências de realização de um referendo sobre a federalização – disse ele.
Fora da sala de conferências, homens mascarados armados com fuzis Kalashnikovs, pistolas e armas se distribuíam pelos corredores do edifício. As tensões em torno da tomada do edifício aumentaram depois que os manifestantes invadiram o arsenal do serviço de segurança. Um manifestante estipulou o arsenal como tendo em torno de 200 a 300 fuzis.
A porta-voz da polícia local, Tatyana Pogukai, disse que a polícia não iria tomar nenhuma medida enquanto as negociações estiverem em andamento.
– Nós não queremos nenhum tipo de violência. Ninguém precisa de nenhuma morte ou sangue – disse ela por telefone.
Manifestantes em Donetsk, mais para o sul, permanecem no controle do principal edifício da administração regional, mas as autoridades puseram fim à ocupação na cidade de Kharkiv.
– A solução para esta crise será encontrada dentro das próximas 48 horas. Para aqueles que querem o diálogo, propomos conversações e uma solução política. Para a minoria que quer conflito, irão receber uma resposta enérgica das autoridades ucranianas – disse a repórteres o ministro do Interior, Arsen Avakov, na capital, Kiev.
O serviço de segurança estatal da Ucrânia informou que 50 pessoas haviam deixado o edifício em Luhansk durante a noite. Os manifestantes confirmaram que algumas pessoas tinham ido embora.
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