Aliados do senador Renan Calheiros estão de olho na vaga deixada pelo senador. De um lado o PMDB. Do outro o PT. Entre eles, os oposicionistas DEM e PSDB. Parte-se do pressuposto convertido em consenso: embora a licença de Renan seja de 45 dias, ninguém aposta uma nota rasgada de real no retorno dele ao comando do Senado.
Em condições normais, o sucessor seria do PMDB, dono da maior bancada - 19 senadores. Mas o Senado está longe da normalidade. O que leva o PT - quarta bancada, com 12 senadores - a armar-se para tentar subverter a tradição.
O vice-presidente Tião Viana (PT-AP) prepara-se para transformar sua interinidade numa gestão de titular. Privadamente, programa o anúncio de medidas de impacto. Embora não admita em público, age movido pelo desejo de ser confirmado no cargo. Nos próximos dias, tentará demonstrar aos seus pares que tem condições de pacificar o Senado, combinando os interesses do governo com os da oposição.
Enxergando os primeiros sinais de fumaça, o PMDB corre para apagar o fogo. Valdir Raupp (RO), líder do partido, lembra que a cadeira de presidente não está vaga. Romero Jucá (RR), líder de Lula, apressa-se em classificar de extemporânea nota em que Aloizio Mercadante (PT-SP) disse que Renan não voltará ao cargo. Almeida Lima (SE), amigo de Renan, chama Mercadante de golpista.
Tucanos e democratas assistem à disputa dos governistas de camarote. Aguardam a hora oportuna para lançar o seu próprio nome à sucessão do Senado. Um nome que vem sendo insinuado desde a fase em que Renan ainda sonhava fazer do coco uma cocada: Jarbas Vasconcelos (PE), dissidente do PMDB.
O Planalto, que até sexta-feira imaginava-se em condições de jogar água na fervura do Senado, começa a se convencer de que terá de agir para conciliar os interesses governistas. Prepara-se para se meter na disputa sucessória. Receia que, deixando a disputa ao deus dará, a emenda da CPMF suba no telhado. Como não pode prescindir do apoio do PMDB, Lula agirá para enquadrar o PT.
O presidente da República enxerga em José Sarney (PMDB-AP) o nome que melhor atende aos interesses do governo. O problema é que parte do tucanato, à frente o líder Arthur Virgílio (PSDB-AM), promete erguer barricadas contra a ascensão de Sarney. Embora não tenha número para cantar de galo, a oposição, se unida, tem no terreiro do Senado um espaço bem mais vasto para ciscar do que na Câmara, onde a maioria do governo é acachapante.
Para complicar a vida do Planalto, o PMDB do Senado nunca esteve tão dividido. Parte da bancada não enxerga em Romero Jucá, o líder de Lula, autoridade para falar em seu nome. Um naco ainda maior não vê no líder Valdir Raupp força para emplacar os seus pedidos de cargos e verbas. Era Renan quem exercia, nos áureos tempos, o papel de mediador das demandas fisiológicas. Sem ele, o PMDB ficou órfão.
Também o PT não atravessa os seus melhores dias. A líder Ideli Sanvatti (SC) queixa-se, entre quatro paredes, da desenvoltura de Aloizio Mercadante. A própria bancada está em pé de guerra com o colega. Diz-se, a boca cada vez menos pequena, que Mercadante, a pretexto de redimir-se da abstenção no primeiro julgamento de Renan, arvora-se agora à condição de porta-voz da bancada. Um porta-voz não-autorizado, a julgar pela proliferação dos queixumes.