Rio de Janeiro, 04 de Setembro de 2026

PT e governo, relação conflitiva

Entrevista de Ana Helena Tavares com Rudá Ricci no QTMD - O cientista político Rudá Ricci faz, em entrevista aqui reproduzida do site Quem Tem Medo da Democracia, uma análise de conjuntura. Ele considera que tanto PT quanto governo vêm sendo alvejados por dois lados: pelos que acreditam terem sido traídos em sua crença de que haveria mudanças profundas e pela classe média tradicional que se sente frustrada e até humilhada pela inclusão social através do consumo.

Terça, 16 de Junho de 2015 às 13:46, por: CdB
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A difícil relação do PT com o governo, analisada pelo cientista política Rudá Ricci, numa entrevista à jornalista Ana Helena Tavares
O cientista político Rudá Ricci faz, em entrevista aqui reproduzida do site Quem Tem Medo da Democracia, uma análise de conjuntura. Ele considera que tanto PT quanto governo vêm sendo alvejados por dois lados: pelos que acreditam terem sido traídos em sua crença de que haveria mudanças profundas e pela classe média tradicional que se sente frustrada e até humilhada pela inclusão social através do consumo. A “conciliação de interesses”, característica do ex-presidente Lula, foi um fator decisivo para o aumento do conservadorismo na sociedade, garante Rudá. Assim como o sentimento de egoísmo das classes mais abastadas em face à ascensão dos mais pobres também levou ao acirramento de ânimos. Do Congresso, Rudá não espera “nada que aumente o poder popular”. Pede que se diminua o poder dos eleitos e avalia que uma “quebra de confiança” entre o governo federal e muitos aliados contribuiu para a força atual do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no cenário nacional. O entrevistado descarta, porém, a possibilidade de Impeachment de Dilma. Ao final, ele comenta o poder das redes sociais, dizendo que “não influenciam indecisos”, mas ao mesmo tempo vê a mídia tradicional perdendo espaço. O que você considera que aconteceu para levar o PT e o governo a serem alvo de tantos protestos? O PT se formou tendo como uma de suas matrizes discursivas a da moral cristã. Não se trata de uma mera moral de censura ao roubo, mas de defesa dos pobres contra a ganância, a vergonha em relação à opulência e à desigualdade social. Ora, na medida em que os que se diziam representantes dos trabalhadores enriqueceram e se tornaram donos do poder centralizado, revelaram-se traidores da crença dos que imaginavam mudanças profundas. Há, contudo, um segmento social que se sente ofendido pelas políticas sociais adotadas pelo lulismo. Trata-se da classe média tradicional, em especial, do centro-sul do país. Este segmento não tolera perceber o aumento de consumo popular ocorrido nos últimos dez anos. O que considerava seu ambiente privilegiado, como se fosse uma casta, como shoppings e aeroportos, passou a ser “invadido” por classes menos abastadas. A frustração e até mesmo humilhação que a atingiu acabou por abrir uma comporta de ressentimento que se expressou de maneira intolerante e até mesmo racista. Como você avalia a relação atual do PT com o governo? Uma relação conflitiva porque o PT precisa recuperar a confiança perdida. O pacote econômico adotado pelo governo federal é exatamente o inverso do sempre defendido pelo PT. Trata-se de uma agenda monetarista, de enxugamento do dinheiro do mercado, que penaliza mais fortemente o consumo e emprego populares. Não há como um petista defender sua identidade com esta agenda. Entrevistei o economista J. Carlos de Assis e conversamos sobre o ajuste fiscal. Observa-se que as Centrais Sindicais foram às ruas contra a terceirização, mas não parece haver a mesma mobilização social contra o ajuste. Por quê? O problema do sindicalismo brasileiro é que se tornou mais corporativo nos últimos anos, deixando de lado as bandeiras gerais de transformação da sociedade. Também tivemos a emergência de uma aristocracia sindical, via fundos de pensão e ingresso em arenas de grande influência estatal. Os temas mais afetos diretamente aos seus interesses específicos passaram a ter muito maior relevância. Reforma Política. O que se pode esperar desse Congresso? R: Propostas e projetos que aumentem o poder dos maiores partidos e nomes mais vistosos do topo da hierarquia política do país. São propostas casuísticas. Nada que aumente o poder popular ou o controle sobre o eleito. Por que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, adquiriu tanto poder? Em primeiro lugar, porque na eleição passada ele conseguiu financiamento para mais de 100 deputados eleitos. Possui uma bancada quase pessoal, portanto. Em segundo lugar, porque o governo, inacreditavelmente, decidiu disputar a Presidência da Câmara com ele, mesmo sabendo que não contaria com uma bancada tão fiel e numerosa como a dele. Para piorar, o pacote econômico e a nomeação de expoentes conservadores como ministros (como um banqueiro e uma ruralista) quebraram o laço de confiança com muitos aliados. A oposição cresceu sua reação e atingiu as ruas durante março e parte de abril. Este foi o momento de Eduardo Cunha se projetar, abrindo a possibilidade de Michel Temer ganhar mais espaço e importância no governo, como apaziguador deste conflito aberto. Afinal, Cunha é do mesmo partido que o vice-presidente. Você ainda vê chance de Impeachment? Nenhuma. Não há fato, não há apoio entre juristas, não há apelo popular. Aécio Neves e Ives Gandra Martins foram desmoralizados em público. É necessário, ainda, ter em mente que vale mais uma Presidente fragilizada, que deverá ceder, que um impeachment que aumentará a pressão de rua de aliados do governo. O Roberto Freire (PPS) tem ido à TV pedir parlamentarismo. O problema do Brasil é sistema político? Também. Mas, principalmente, nosso problema é que os partidos não acompanham o cotidiano dos brasileiros, não expressam nossa vontade. Algo como duas categorias de brasileiros: os que elegem e os eleitos que só reaparecem em época de eleição. Temos que diminuir o poder dos eleitos e aumentar o dos eleitores, institucionalizando o veto popular, o impedimento de reeleição, a revogação de mandato eletivo. Parlamentarismo é aumento de poder dos parlamentares. Ora, se os eleitos não representam os eleitores, estaremos implantando uma oligarquia. A questão é como oxigenamos o sistema partidário e de representação política, religando o eleito ao cotidiano dos eleitores. Você acha que houve aumento do conservadorismo ou a sociedade brasileira sempre foi assim? Houve aumento do conservadorismo e ofensiva de direita. São coisas distintas. A inclusão pelo consumo promovida pelo lulismo (não pelo direito ou pela política) gerou forte conservadorismo popular, de defesa da ordem e do egoísmo focado no consumo. Como o lulismo se caracterizou pela conciliação de interesses, não enfrentou valores conservadores e se aquietou. Ora, ao convergir o conservadorismo popular com ausência de enfrentamento ideológico nos últimos dez anos, a direita – que propõe um projeto de sociedade e Estado, mais estruturado que meros valores conservadores – projetou-se, percebendo um caminho aberto. Apesar da internet, o poder midiático (TV e jornais impressos) ainda influencia decisivamente o poder político? As redes sociais, até o momento, não influenciam indecisos, mas mobilizam os já alinhados política ou ideologicamente. Já a mídia vem perdendo capacidade de formar opinião, numa sociedade fragmentada e dinâmica. Nos últimos dez anos, os segmentos sociais mais pobres se desvencilharam da opinião da classe média (considerada o eixo da formação de opinião pública moderna) porque perceberam que o voto pode eleger programas que melhoram sua vida. Enfim, a formação de opinião é muito mais dinâmica nos dias atuais que na década passada. Publicado originalmente no site Quem Tem Medo da Democracia?, criado e dirigido pela jornalista Ana Helena Tavares. Entrevista exclusiva.
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