Rio de Janeiro, 05 de Maio de 2026

PT: alargar a plataforma

Por Leonardo Boff: Como cidadão. estou interessado no resgate do PT como patrimônio que o povo organizado, os movimentos sociais, as esquerdas e a Igreja da Libertação ajudaram a construir. A crise atual é oportunidade para o PT enriquecer sua plataforma. Caso contrário faz remendos em roupa velha. (Leia Mais)

Domingo, 09 de Outubro de 2005 às 08:46, por: CdB
Não sou filiado ao PT porque estimo que um intelectual deve tentar pensar o todo e não a parte, de onde se deriva partido. Mas como cidadão estou interessado no resgate do PT como patrimônio que o povo organizado, os movimentos sociais, as esquerdas e a Igreja da Libertação ajudaram a construir. Depois de ter passado pela clínica que o depurou vejo seis pontos fundamentais que podem consolidá-lo.

Em primeiro lugar, há de se reassumir a bandeira das mudanças. A desigualdade social é absolutamente irracional e inaceitável. Por razões políticas, éticas e humanitárias alguém deve assumir essa causa e esse é o PT que, no caso, mais acumulação possui e mais experiências pode apresentar.

Em segundo lugar, estas mudanças devem ser feitas a partir de baixo, das vítimas do processo social perverso que estigmatiza nossa sociedade. Por isso o PT tem que voltar às bases, articular-se com os movimentos sociais (não aparelhar) e criar ai a base de apoio principal. O povo deve ser o principal destinatário e beneficiário das mudanças. A política não pode ser apenas distributiva mas redistributiva, isto é, deve tirar dos ricos e repassar aos pobres.

Em terceiro lugar, tudo deve ser feito no quadro da democracia sem fim. Nada de golpismos ou violência insurgente. Mas radicalizar a democracia como valor universal a ser realizada em todas as instâncias até chegar à economia. Democracia sem fim e integral é sinônimo de socialismo no sentido de colocar o social como eixo estruturador de tudo.

Em quarto lugar, a política deve ser orientada pela ética da transparência. Isso exige controle dos processos e rotatividade no poder. Nada, portanto, de "ditaduras" de um grupo como o "campo majoritário". Quem viola a ética política deve ser excluido do partido. Aqui o PT deve ser intransigente e exercer tolerância zero.

Em quinto lugar, o PT deve ser um partido contemporâneo que deixa para trás o velho paradigma antropocêntrico e assumir a fase planetária da humanidade. No novo paradigma, a Terra é entendida como viva e única Casa Comum que temos para morar, com superpopulação, recursos escassos e sob ameaça da máquina de morte que a nossa civilização demente criou a ponto de poder exterminar a espécie humana e ferir gravemente a biosfera. Há pouca massa crítica no PT sobre esses temas. O PT do Acre é o que mais avançou nesta área e pode ser inspirador. Os estrategistas do partido devem inserir este horizonte em sua política local e mundial para alcançarem o nivel de consciência exigido pelo desafio atual. Ademais, o futuro da humanidade e da vida depende em grande parte do que faremos com a Amazônia, com os recursos hídricos, com a biodiversidade e a abundância de fontes alternativas de energia.

Em sexto lugar, o PT deve estar aberto à dimensão espiritual da existência. Primeiro, porque o povo possui claramente esta marca, depois porque o pensamento científico de ponta especialmente as ciências da vida e a nova cosmologia se abrem ao espiritual como uma dimensão do humano. Ser espiritual é libertar-se do materialismo prático e fazer-se sensível à gratuidade, à troca das intersubjetividades e ao encantamento face ao mistério das coisas. Esse dado pré-político ajuda a dar qualidade à política e ao político.

A crise atual é oportunidade para o PT enriquecer sua plataforma. Caso contrário faz remendos em roupa velha.



Leonardo Boff é teólogo.
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