Rio de Janeiro, 17 de Maio de 2026

PT: a bandeira, o "laranja" levou

Terça, 12 de Julho de 2005 às 07:52, por: CdB

A crise do governo do PT revela a grande perda da esquerda: a bandeira que trouxe da oposição para o poder. Antônio Delfim Netto cultivava um hobby muito liberal, ainda que não muito coerente com o seu temperamento: colecionar as charges que o tomavam por motivo. Por compra ou doação, as obtinha, emoldurava e pendurava em seu sofisticado escritório paulistano. Gordo, papudo, grandes óculos, Delfim era uma permanente fonte de inspiração para os caricaturistas. Algumas charges eram mordazes. Nem por isso ele deixava de recolhê-las.

Enfileiradas, as charges serviam de atestado de liberalismo para o homem que mandou no Brasil quando mandar era, literalmente, tudo poder, o legal e o ilegal, o admissível e o impossível. Todo-poderoso foi Delfim no longo mandato do general Garrastazu Médici (1969-74). Poderoso foi também antes e depois, sob o regime militar. Talvez nenhum chefe militar pôs mais e dispôs mais do que o mestre em economia da USP, a Universidade de São Paulo.

Mas Delfim Netto não emoldurou uma charge que Cássio Loredano preparou para o jornal Opinião publicar em 1973, no auge do "milagre econômico" brasileiro. Delfim, o mago desse milagre, monstruosamente distorcido, só banha, óculos e orelhas, aparece no desenho sobraçando dinheiro enquanto a patuléia, faminta e ávida, se retorce na tentativa de conseguir pelo menos as sobras da bolada.

Era a alegoria do crescimento do bolo da riqueza, que só devia ser fatiado e distribuído ao povo quando chegasse a um tamanho monumental. A concentração de renda no Brasil se tornou recordista graças a esse modelo. A distribuição foi para as calendas gregas, onde Loredano foi buscar o ciclope míope para a sua charge arrasadora.

A ilustração compôs, com o texto de Marcos Gomes sobre o crescimento mais que proporcional (ao milagre econômico) da dívida externa, um raro momento em que o jornalismo falou tão alto, na denúncia dos erros do governo, quanto o próprio governo, na consumação do dano. Delfim bufou de raiva ao abrir a página do jornal com sua caricatura nauseabunda. Já nós, os jornalistas críticos, nos sentimos redimidos por aquela combinação de texto e imagem a serviço da verdade e contra os falsos milagreiros. Aquele grito de indignação jamais iria figurar na galeria particular do paulistano da Mooca.

Esse mesmo Delfim, agora representante parlamentar de São Paulo pelo PP, é chamado para conversas ao pé do ouvido no Palácio do Planalto com o outrora chamado "núcleo duro" do poder, montado em torno (e além-fosso) do presidente Lula. Além de dar dicas e semear as bases de um novo plano econômico, o ex-ministro do planejamento de Médici poderia até ocupar um dos ministérios no governo desnorteado do PT. Dá para lembrar, com outro sentido, o quadro da televisão criado por Jô Soares para retratar o exilado político na época em que Delfim era o czar da economia e quem não rezasse pela cartilha do regime tinha que ir ajoelhar lá fora: "não querem que eu volte", dizia o exilado (no caso, auto-exilado) de um orelhão de Paris.

Agora o bordão teria que sofrer a devida adaptação: não querem que eu acredite. O governo que se elegeu como porta-voz daquela massa de deserdados do milagre, a cercar o rotundo e rico Delfim com sua aparência famélica e seus instintos em esgotamento, agora ousa sair atrás dos conselhos do homem que melhor personificou o elemento mais abjeto desse modo de fazer crescer um país: impondo-lhe a maior concentração de renda dentre todos os países do planeta, com os juros mais extorsivos da Terra, oito vezes superiores aos praticados na nação mais poderosa, os Estados Unidos.

Um governo com essas características marcantes não pode estar sendo alvo de uma conspiração das elites, como alegam os integrantes do apparatchick petista, tão realistas quanto conseguia ser o realismo de Papá Stálin, concebido nos gabinetes fechados do Kremlin. Afora o "detalhe" de que o país está submergindo socialmente, a vida nunca esteve mel

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