Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 2026

PS francês dividido entre duas mulheres

Segunda, 24 de Novembro de 2008 às 05:11, por: CdB

Uma se chama Martine Aubry, a outra Segolêne Royal. Ambas são a manchete política dos últimos dias na França por disputarem a unhas e dentes, puxando-se os cabelos, a direção do Partido Socialista.

Martine Aubry é a prefeita de Lille, a criadora da semana de 35 horas em lugar de 40, filha de Jacques Delors, que foi ministro de Economia na época de François Mitterrand, presidente da Comissão Européia e que terminou sua carreira recusando-se a ser candidato à presidência apesar da insistência dos socialistas.

Segolène Royal foi a candidata à presidência, derrotada por Sarkozy, ex-esposa do atual dirigente do PS francês, tendo exercido os cargos de ministra do Meio-Ambiente, do Ensino Escolar e da Família, elegendo-se diversas vezes deputada e dirigindo o conselho da região de Poitou-Charentes.

Martine é amiga dos chamados “elefantes” do PS francês, seus grandes líderes do passado, como Dominique Strauss-Khan, hoje dirigente do FMI, e dos ex-primeiros-ministros Laurent Fabius e Lionel Jospin. Com o apoio desse pessoal mítico mas um tanto envelhecido, Martine Aubry decidiu concorrer à sucessão de François Hollande, dirigente há onze anos dos socialistas.

Derrotada nas eleições, mas sempre ativa, Segolène Royal anunciou no Congresso de Reims sua intenção de também disputar a direção do Partido Socialista. Eram quatro os candidatos, entre eles o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, considerado o favorito. Uma vitória lhe garantiria a candidatura à presidência na sucessão de Sarkozy.

Delanoe tentou obter uma união das diversas tendências contrárias a Segolêne mas não conseguiu. Uma recente mudança na estrutura do PS francês fez com que seus aderentes, os socialistas de carteirinha, escolham o dirigente do partido e o candidato à presidência. Embora a cúpula socialista deteste Segolêne, ela é extremamente popular.

No primeiro turno para escolha do dirigente do PS, Delanoe foi derrotado por Segolêne, seguindo-se em terceiro lugar Aubry e, em último, um jovem pouco conhecido, Benoît Amon. Como é preciso maioria absoluta, preparou-se um segundo turno. Os três derrotados rejeitaram um acordo e o prefeito de Paris acabou anulando sua candidatura. A princípio, deixou livre aos seus eleitores a escolha, mas no dia seguinte anunciou apoiar Martine Aubry. Na cúpula do PS circulava a palavra de ordem – “todos contra Segolène”.

Ora, Segolêne, que além de popular é uma bela mulher, ganhou novamente, mas sem obter maioria, havia necessidade de um terceiro turno, desta vez só entre Segolêne e Aubry, pronunciando-se Benoît Hamon em favor de Aubry.

O terceiro turno foi na quinta-feira e seus resultados só foram divulgados na madrugada de sexta– Aubry ganhou por 42 votos. Ganhou mas ainda não levou, porque imediatamente Segolène levantou as acusações de fraude na votação e, até agora, não se conseguiu um acordo entre os socialistas. É verdade que na recontagem dos votos, estão aparecendo diversas irregularidades que poderão dar a vitória a Segolêne.

Desde sexta-feira, embora tivessem prometido se dar as mãos e aceitar a decisão dos membros socialistas, nem Aubry e nem Segolêne se falaram ou se telefonaram. Os socialistas nunca viveram uma crise parecida – de um lado toda a cúpula do partido, que apoiou Aubry, colocada em questão pela metade da base popular, favorável a Sego. E, neste domingo à noite, tanto Aubry como Segolène ameaçavam pedir à justiça uma decisão caso se comprove ter havido manipulação de votos. Ora, uma decisão judicial leva tempo. Será que o PS francês ficará suspenso à espera de uma decisão judicial ? E ganhe uma ou outra, haverá ainda condições para amigos e inimigos de Segolène trabalharem juntos ?

Duas mulheres, duas duronas estão colocando em xeque o aparelho socialista e pouca gente se atreve a fazer uma previsão quanto ao futuro do partido, unificado no passado por Mitterrand.

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