Pelo menos três manifestantes foram mortos por forças da ONU nos tumultos que atingiram na quinta-feira a República Democrática do Congo. Milhares de congoleses atacaram instalações da ONU para protestar contra a tomada da cidade de Bukavu por um grupo rebelde.
As mortes aconteceram na capital, Kinshasa, onde milhares de manifestantes tomaram as ruas, destruíram carros e agrediram funcionários da ONU. O Exército e a Organização das Nações Unidas tiveram de usar helicópteros para conter o tumulto.
Os congoleses culpam a ONU pela invasão de Bukavu, na quarta-feira, por uma tropa comandada por um general rebelde. Missões da organização sofreram ataques na cidade de Kindu, na região central do país, em Kisangani, ao nordeste, e em Lubumbashi, no sul. Nesta última cidade, numa região de mineração, os funcionários da ONU precisaram pedir proteção ao Exército.
Na cidade conquistada de Bukavu, no entanto, a calma parecia ter retornado. O general rebelde Laurent Nkunda, que tomou a cidade depois de uma semana de batalhas, prometeu recuar. "Sim, vou abandonar a cidade para garantir ao governo de transição que não nos opomos a ele. Ontem retirei 300 (combatentes) da cidade e hoje estou preparando nossa saída", disse ele à Reuters.
Há cerca de 1.060 integrantes das forças de paz da ONU em Bukavu. O Exército congolês tem cerca de mil soldados na região. Estima-se que Nkunda conte com até 4.000 guerrilheiros.
A cidade estava praticamente deserta, exceto por veículos blindados tripulados por soldados rebeldes, percorrendo as ruas cheias de cacos de vidro.
A batalha em Bukavu foi um duro golpe para os esforços de paz no país, e ameaça reacender o conflito militar entre Congo e Ruanda. Ruanda invadiu o país vizinho, no centro da África, duas vezes nos últimos anos, em 1996 e 1998.
O general Nkunda é um ex-integrante do RDC-Goma, o maior grupo rebelde -- apoiado por Ruanda -- da guerra civil no Congo, que foi declarada encerrada no ano passado, depois de cinco anos.
Ele exige que Kinshasa demita o comandante do Exército responsável pela região, para que ele possa garantir a segurança de Bukavu, localizada numa região montanhosa de fronteira com Ruanda.
O ministro das Relações Exteriores de Ruanda, Charles Muligande, disse à Reuters que qualquer tentativa por parte do Exército congolês de atingir combatentes tutsi, pela expulsão dos ex-rebeldes, seria equivalente a "uma limpeza étnica ou genocídio."
Cerca de 2.500 pessoas fugiram para Ruanda desde o início dos combates, que deixaram pelo menos 65 mortos na região de Bukavu.
O comandante do grupo rebelde disse que seus homens lutam para proteger a tribo dos baniamulengues -- tutsis congoleses que acusam as forças de segurança do Congo de realizar ataques contra si.
O presidente Joseph Kabila classificou a tentativa de proteção dos baniamulengues de "uma trama de Ruanda para entrar no Congo."
"É uma agressão dos ruandeses contra nosso país ... Decidimos mobilizar nossos recursos, homens e finanças para nos defender", disse ele na TV estatal.
Para o ruandês Muligande, as acusações de Kabila são o último recurso para evitar a vergonha de perder Bukavu para "soldados rebeldes de dentro do Exército congolês".
Um representante das Forças Armadas de Ruanda minimizou a possibilidade de o país intervir no conflito em Bukavu. "Se o conflito entrar em Ruanda, teremos de intervir, mas não se ele permanecer no território dele (de Kabila)", disse o porta-voz Patrick Karegeya.