Rio de Janeiro, 28 de Abril de 2026

Proteção ambiental é sinônimo de morte na Amazônia

Defensor dos direitos fundiários na Amazônia, Deurival Santiago parece viver acossado. Barbado, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, ele está escondido nos fundos de uma casa próxima à lamacenta rodovia Transamazônica. Um amigo vigia o portão, de olho nos pistoleiros contratados para matá-lo. (Leia Mais)

Quarta, 21 de Dezembro de 2005 às 12:07, por: CdB

Defensor dos direitos fundiários na Amazônia, Deurival Santiago parece viver eternamente acossado. Barbado, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, ele está escondido nos fundos de uma casa próxima à lamacenta rodovia Transamazônica. Um amigo vigia o portão, de olho nos pistoleiros que, segundo Santiago, foram contratados para matá-lo depois de um confronto com grileiros que avançavam sobre uma cobiçada área no leste da floresta.

Ativistas como Santiago muitas vezes atuam em prol de agricultores pobres em áreas da Amazônia sobre as quais o governo tem pouco controle. Isso o coloca em confronto com empresários que extraem madeira e ocupam terras na região paraense conhecida como Terra do Meio, hoje em dia a maior frente na batalha na luta para reduzir a destruição da Amazônia.

- Tive de fugir porque ia morrer naquele mesmo dia - disse Santiago, que abandonou a mulher em novembro em Pacajá, cerca de 200 km a sudeste de Altamira, o maior centro regional.

Neste ano, depois do assassinato da freira norte-americana Dorothy Stang perto de Anapu (a 100 km de Altamira), o governo criou na Terra do Meio a maior área mundial de proteção ambiental, na tentativa de conter a lenta e constante degradação da floresta. As autoridades liberaram verbas para a instalação de colonos autorizados a cultivar e desmatar pequenas áreas, sem devastar totalmente a floresta.

Mas o governo federal não garantiu recursos suficientes para fiscalizar a Amazônia e garantir que a redução de 30 por cento na taxa de desmatamento, tal qual verificada neste ano, se torne uma tendência permanente, segundo autoridades federais e ativistas. A intenção de um dia asfaltar a Transamazônia - atualmente intransitável durante seis meses por ano -- e de construir uma hidrelétrica perto de Altamira são fatores que incentivam a chegada de migrantes e intensificam a luta por áreas desprotegidas da floresta.

Cinco pessoas morreram em disputas fundiárias na região de Altamira neste ano, inclusive em incidentes entre agricultores.

- Os ativistas estão aumentando a violência. Eles estão tentando fazer o trabalho do governo federal - diz o fazendeiro Silverio Fernandes, vice-prefeito de Altamira.

Mas líderes comunitários em Altamira dizem que os funcionários do Ibama são subornados por madeireiros e latifundiários e que a polícia local-- civil e militar-- apóia ou faz vista grossa aos crimes no campo. No entanto, eles acusam os ativistas de esquerda de inventarem ameaças de morte para obter o apoio da população rural, de olho em eleições.

- Qualquer pessoa honesta que venha para cá trabalhar, abrir uma empresa com sua família e gerar riqueza para a nossa região ficará realmente intimidada - observa Edina Loraschi, presidente da Associação Comercial de Altamira.

Enfim, a Polícia Federal

Na casa alugada que serve de delegacia da Polícia Federal, o superintendente do órgão no Pará, José Salles, conta que ainda não viu a cor do dinheiro prometido para a construção de novas delegacias depois da morte de Stang. A PF só chegou no ano passado a Altamira. Ela tem ali três camionetes e dez agentes para policiar uma área de floresta maior do que a Grã-Bretanha. No dia 13 de dezembro, Altamira ganhou também o seu primeiro tribunal federal.

A população acha a PF impotente contra bandidos e pistoleiros fortemente armados, e os próprios policiais sabem como devem agir numa área onde todo mundo carrega uma pistola na cintura.

- Não somos cruzados da justiça - diz o delegado Mario Nery, 33, de terno cinza e gravata vermelha, diante de uma pilha de inquéritos que vai até o teto.

No centro da cidade, onde os fazendeiros passam zunindo com suas picapes diante de lojas que vendem arame farpado, selas e serras elétricas, Santiago visita o escritório do Incra em busca de ajuda. Diante de um presidente Lula sorridente no retrato, o chefe do escritório, Bruno Kempner, promete enviar seus age

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